segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Não aceitar o inevitável


Há algo mais inevitável que a morte? Mas, pouco nos prepararam para enfrentá-la! Passámos quinze, vinte, trinta ou mais anos a estudar e a preparar-nos para a vida, mas quanto tempo dedicámos a preparar-nos para enfrentar a morte que vamos viver, à nossa volta e inclusive a nossa própria?
De qualquer forma, não pretendo circunscrever este capítulo apenas ao tema da morte.
Existem muitos factos inevitáveis que se sucederão ao longo da nossa vida; não aceitá-los, de um ponto de vista da saúde mental, significa, de novo embarcar num sofrimento inútil, dilacerante e, em muitas ocasiões, muito duradouro no tempo.
Sem pretender doutrinar. A luta não significa desinteresse, mas sim adaptação aos factos, que nos ferem duplamente. Penso que a grandeza do ser humano é a sua capacidade de adaptação à realidade, mas adaptação aqui não deve ser entendida como resignação, só quero perceber e agir com o máximo esforço, e não andar sempre a lamentar.
É um exemplo muito claro de como uma pessoa não aceita o inevitável. Nem tudo se pode comprar com dinheiro!
Passamos a vida a trabalhar como escravos para poder comprar coisas inúteis. Gastamos o nosso tempo indo de um sítio para o outro para, no fim, não encontrarmos o lugar que procurávamos. Não paramos de correr todo o dia para comprovarmos, ao cair da noite, que no dia seguinte teremos de continuar a correr
A realidade é muito mais simples, mais visível. Trata-se de segurarmos o ( leme) das nossas vidas. Sem que nos apercebamos, pode-nos acontecer o mesmo que ao Manuel, que não havia dia que não complicasse a sua vida de mil maneiras diferentes.
Este é com certeza um dos hábitos que mais nos custa corrigir quando está muito enraizado na nossa maneira de ser. Ainda agora estou aprendendo, a não complicar a vida desnecessáriamente preocupando-me a não sofrer de forma inútil e estéril. Para conseguir este propósito tenho que aprender a não expressar tudo o que penso. Que Deus me ajude.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

De tudo o que vivemos




Não nos enganemos, não há nada que nos possa arrebatar o nosso presente; inclusive nas circunstâncias físicas mais duras que possamos imaginar, os nossos pensamentos sempre nos pertencerão e, com eles, as nossas emoções. Quero pensar assim , e , pedir a ajuda de Deus, para aliviar a dor , e pensamentos, que estão a destruir o meu espirito neste momento.
Sem dúvida, o presente é o nosso principal activo, e é assim porque nos pertence plenamente.
Quando olhamos à distância, com que facilidade vislumbramos as consequências do que vivemos! É como se tudo se apresentasse diante de nós para conceder-nos a oportunidade de aprender. Neste momento, pelo contrário, que difícil é ver o evidente, o que se passa neste momento diante de nós, o que estamos a viver no presente.
Manuel, adoeceu antes de Dezembro, numa queda nos degraus da nossa casa. Agravou-se com tosse, há medida que o tempo foi passando, foi piorando, fraqueza, tonturas, e, por insistência minha foi ao médico. Não quero acreditar que seja tarde; embora a situação do diagnóstico é evidente (cancro no pulmão ). E é difícil porque perdi a objectividade, estou demasiado envolvida na acção, não olho com perspectiva.
A verdade que as minhas emoções estão ao rubro, não consigo realizar um pensamento positivo, não consigo caír em algo tão evidente. Choro , no silêncio, tento dar-lhe força, quando meu Deus, estou a sangrar por dentro. A verdade é outra, e que penso um pouco, sinto-me encurralada pelas circunstâncias que me faz cambalear, e que me cega ao extremo de acreditar que, de novo, estou face a um problema de difícil solução. Ontem disse-lhe! Estou envergonhada e quero pedir-te desculpa, porque devido às minhas rachas só podes entregar metade da minha carga e só obténs metade do valor que deverias receber.
Eu sinto-me uma vasilha rachada e estou muito envergonhada da minha própria imperfeição, e sinto-me miserável, porque devo fazer tudo o que é suposto ser a minha obrigação. Ontem chorei, e disse-me com carinho: Reparaste que as flores só crescem do teu lado do caminho? Semeaste sementes de flores ao longo do teu caminho por onde passas, e todos os dias as pessoas as regam, e decoram o altar de Deus com o teu amor. Se não fosses exactamente como és, com todos os teus defeitos, não teria sido possível criar quatro filhos com a sua beleza, espíritual.
Só peço, que Deus me ajude, e, olhar com olhos de ver, e nos ajude a sair deste estado tão lamentável, que só serve para nos indicar novos caminhos que de outra forma não teríamos procurado.

sábado, fevereiro 14, 2009

A bondade


Hoje estou feliz. Estive a ver o mar, o vento morno, com os salpicos de água a bater suavemente no meu rosto. E falava com Deus.

Tu existes Senhor...moras no meu coração, no vento que não vejo, mas sinto, nas montanhas, nos mares. Tudo ao meu redor é mistério mas, sinto a tua presença. Pensava na bondade, nos corações puros, e, outros doentes que precisam do teu amor.

A bondade suprema é como a água.

A água é benéfica a todas as coisas, mas não entra em competição, fica nos sítios que outros desprezam. Está perto de Deus, portanto, a bondade não tem ego que chame o seu próprio ego; faz do ego dos outros o seu ego.

Para os bons, comporto-me com bondade; para os maus, também com bondade: Assim é alcansada a bondade. Para o fiel comporto-me com fé; assim é alcansada a fé. O sábio vive no mundo com concórdia e governa o mundo com simplicidade. Seja para onde for que os outros voltem os seus olhos e os seus ouvidos, o bondoso olha como a mãe olha para os seus filhos. Penso no meu mestre espiritual, recordo sempre os seus ensinamentos. Sempre me dizia; o grande caminho é muito plano e fácil, mas as pessoas preferem os atalhos, paga o mal com a justiça e a bondade com a bondade.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Deixar


Pode ser bastante doloroso um dia pararmos e percebermos tudo o que perdemos na vida, porque perdemos, resume-se a falhas, a grandes ou pequenas falhas, de comunicação, de respeito e estima. Perdemos o que não era suposto levarmos connosco, o que não precisamos mais.
O que me conforta é a sensação que foi preciso abdicar do bom para obter o óptimo. E que com tudo o que fui deixando para trás tornei a minha caminhada mais leve e com mais espaço e capacidade para agarrar o novo, o tal óptimo. Eu não perdi liberdade de movimentos com o que adquiri de novo, eu ganhei liberdade de caminhar melhor. Às vezes não podemos segurar em tudo ao mesmo tempo. E às vezes carregamos fardos muito pesados para não conseguir agarrar em mais nada. Custa a deixar para trás, às vezes ainda percorremos caminho com algo preso em nós arrastando pelo caminho, mas tudo o que é suposto partir, acaba por partir. por isso não me arrependo do que deixei para trás.
Lá ficou, e a vida é um caminho sem retorno, e comigo só levei as lembranças daquilo que algum dia me pertenceram, como foi bom tê-las e porquê as deixei, e isso pesa muito pouco e é muito útil na minha caminhada

domingo, fevereiro 08, 2009

Portagem no amor


O amor conduz à felicidade, mas o privilégio do amor também tem as suas contrapartidas. Eu experimentei-o na minha própria carne, e não me arrependo, mas neste momento não posso mais, e embora apareça afectada, sinto que este amor morreu.
Não temos que ter medo da dor, e até sofrimento, quando é inevitável, porque essa dor desse amor, serão passageiros. O que não podemos pensar é que o amor e o sofrimento estão indefectivelmente unidos. É normal em que algum momento da nossa vida amorosa sintamos dor e nos preparemos para superá-la e viver o amor com naturalidade e maturidade.
Esta semana conheci uma pessoa, onde em poucas palavras, ficamos amigos. Contou -me o que se passava no seu coração
Jaime, o nome que lhe dou, empenhava-se em contar-me minuciosamente o que sentia em cada dia, e eu, pelo contrário, insistia em que não recreasse nos seus pensamentos, tão subjectivos e tão traiçoeiros neste momento, que só traziam dor e escuridão à sua vida e à sua relação com a sua Ex-companheira. Ao contrário de que muitos possam pensar, não se tratava de remexer nas feridas, porque isso teria acabado com a pouca força que tinha, tratava-se de estancar a hemorragia, de dar-lhe recursos que lhe permitissem deixar de sofrer de forma tão inútil quanto negativa.
Nada funciona na minha vida e não tenho forças para continuar a lutar, a sério, dizia-me ele, sinto que já não há nada a fazer. Perante esta confissão da sua parte, eu respondi-lhe, mais ou menos, que, não luta quem não se apercebe que tem de lutar, e que no seu caso ele era consciente que havia que fazer alguma coisa, e que isso já constituía em si um enorme progresso. Jaime, se pensasse realmente que não há nada a fazer, não estaria aqui; não terias vindo contar-me algo que guardas dentro de ti, tão em segredo. Sabes que essa sensibilidade que te fez sentir-te a pessoa mais felizarda do mundo vai agora permitir-te sair desta crise. Mas não o vais conseguir pela autocompaixão, indo-te abaixo e fomentando o teu sofrimento.
A realidade é que a felicidade está em nós. A capacidade de amarmos e sentirmo-nos amados também está dentro de nós e, acima de tudo, o amor que sempre, absolutamente sempre, estará a nosso lado será o nosso próprio amor; daí a importância vital que adquire o conceito que tenhamos de nós próprios. Sem dúvida, para aprender a amar, é bom que primeiro aprendamos a amar-nos a nós próprios pois, de contrário, dificilmente poderemos amar os que nos rodeiam e nunca, nunca, seremos donos da nossa felicidade, já que a estaríamos a colocar nas, mãos de outros.
Resumindo, nem há que pagar portagem no amor, nem a vida acaba quando acaba o amor.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

O melhor lado


Se grave apreensão corrói a tua paz.

vira-a de quando em quando.

Espera, e acabarás, via da regra.

Por encontrar a solução exacta.

Já reparaste que uma nuvem negra.

É muitas vezes debruada a prata?


Viver é manter-se bem alerta.

Pronto, sempre, a fazer a justa opção:

Entre a face errada e a face certa.

Entre o lado alegre e o lado triste.

Entre a luz e a escuridão.


Quando a vida te acabrunha e entristece.

Dá ao pensamento outro traçado:

Volta para cima o melhor lado.

E eis um dia novo que amanhece.


Constrói um arco-iris cheio de beleza.

Policroma-o de tons e matizes joviais.

Sob esse talismã a vil tristeza.

Há-de deixar-te para nunca mais.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Decidido


Hoje comecei a trabalhar, no APA. Os meus filhos disseram-me estás doida, depois de dois anos regressas ao serviço, vão matar-te.

Respondi-lhes que talvez fosse melhor assim. A seguir arrancára dois anos, ou duas páginas do livro da vida e, página seguinte, em letra grande, viveria a minha vida de outra maneira.

Suspensa entre o alívio e o atordoamento, ao chegar ao serviço. Todas as colegas que encontrava perguntavam: uma grande espera? Que saudade.

Durante o dia, senti necessidade de me afastar das memórias destes dois anos. Não podia continuar na companhia de todo o peso desse tempo, para limpar os detritos, as sombras, para me purificar, andei por muito tempo no planalto

Ocultos nas encostas do APA, os melros cruzavam os seus cantos de amor, as folhas amarelecidas do Outono dava esplendor à paisagem circundante, enquanto meus olhos brilhavam com uma nova luz de esperança.

Enquanto caminhava de carro para o serviço, punha-me a admirar a beleza das árvores despidas, e pensei, que saudades. Enquanto ia andando entre o trânsito, pensava nesse meu irmão - ou nessa minha irmã-a quem não fora dado a possibilidade de conviver, ou de amar. As suas existências poderiam ter salvo muita coisa da minha vida, ou teriam acelerado o seu declive de destruição?

Não tinha qualque lembrança feliz, destes dois anos, o que restava deles em mim, era uma espécie de ruído de fundo, um feixe de vozes contrapostas, de rumores agudos, abafados de tempos a tempos pelo som pungente de um instrumento( identificado por cirurgias) que me fazia chorar.

Tenho medo daquele som, tal como tenho medo de estar sózinha. Deve ter sido esse terror que apagou o meu sorriso, e muitas coisas da minha memória. Cada pessoa tem a necessidade inata de espanto, para algo que possa admirar, ser conduzida ao cume de um monte e contemplar o esplendor, as mundanças de luz, a neve, o reflexo dos gelos, a águia que, lá nas alturas, protege magestosa os filhotes, como deveriam fazer todos os seres humanos. Mas as lembranças, e a paisagem que se destacavam no horizonte destes dois anos, não passaram muitas vezes de uma lixeira a céu aberto. Para não me deixar levar pelo desalento, sorri.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Criança


Ontem à noite como é habitual fui dar um beijo ao meu filho Fábio. Em desabafos, fui aumentando os meus episódios de criança, onde ele prestava muita atenção. Narrando acrescentei...
No colégio, a indiferença que sentiam pelo nosso desenvolvimento interior igualava a extrema rigidez com que tratavam os aspectos mais banais da educação. Tinha de me sentar direita à mesa, com os cotovelos colados ao corpo. Se, ao fazê-lo, só pensava na melhor forma de me matar, isso não tinha qualquer importância. A aparência era tudo, para além dela só existiam coisas inconvenientes.
Assim , cresci com a sensação de era algo semelhante a uma macaca que devia ser domesticada e não um ser humano, uma pessoa, com as suas alegrias, os seus desânimos, a sua necessidade de ser amada. Esse mal-estar depressa gerou dentro de mim uma grande solidão, uma solidão que com o passar dos anos se foi tornando enorme, uma espécie de vácuo onde eu me movia com os gestos lentos e desageitados de um mergulhador. A solidão também nascia das perguntas, das que fazia a mim mesma e às quais não sabia responder: Já aos quatro, cinco anos olhava à minha volta e pensava: Porque estou eu aqui? Donde é que vim, de onde vêm todas as coisas que vejo à minha volta, o que há atrás delas, terão estado sempre aqui, mesmo quando eu não estava, estarão sempre?
Fazia a mim própria todas as perguntas que fazem as crianças sensíveis quando começam a tomar consciência da complexidade do mundo. Estava convencida de que os adultos também as faziam, que eram capazes de responder, mas após duas ou três tentativas com as Freiras, percebi não só que não sabiam responder, mas também que nunca as tinham feito a si mesmas.
Assim foi aumentando a sensação de solidão, compreendes, para resolver todos os inigmas só podia contar com as minhas forças, quanto mais o tempo ia passando, mais perguntas fazia acerca de tudo, eram perguntas cada vez maiores, cada vez mais terríveis, ficava aterrorizada só de pensar nelas.
Indelicadeza? Superficialidade? Sadismo? O que havia naquelas respostas? E porquê? perguntava eu. Porque estavam fartas das minhas maldades. No mesmo instante em que ouvia aquelas palavras, houve algo dentro de mim que se rompeu. Comecei a não dormir de noite, de dia, bastava um pequeno nada para desatar a soluçar. Passado uns poucos anos , chamaram o psiquiatra. A miúda está com um esgotamento, disse ele, e receitou-me óleo de fígado de bacalhau.
E ningém me perguntou porque não dormia, porque andava sempre de um lado para o outro, como uma bola roída.A partir desse momento, as minhas acções deixaram de ser neutras, independentes. Com o terror de cometer mais um erro, fui-as reduzindo ao mínimo, tornei-me apática, hesitante. À noite, apertava o lençol nas mãos e chorava, dizendo: Mãe, por favor, volta e leva-me, gosto mais de ti do que de todos. É por isso que digo que aos seis anos já era grande, porque,no lugar da alegria havia a ansiedade, no lugar da curiosidade, a indiferença. As Freiras seriam uns monstros? Claro que não, eram pessoas absolutamente normais para a época.
Olhei para o meu filho. Dos seus lindos olhos bailavam algumas lágrimas, disse-me docemente. Amo-te muito mãe.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

A dor




A dor ensina-nos igualmente que somos dependentes dos outros. Quando estamos doentes, vamos ao médico. Quando estamos emocionalmente perturbados, visitamos um amigo ou um terapeuta. Quando a vida nos pressiona, chamamos por Deus. O sofrimento abre-nos um canal, através do qual podemos falar honestamente com outra pessoa, provavelmente pela primeira vez. Poderemos sentir algum alívio sabendo estarmos em sintonia com outros que também sofrem ou que, pelo menos, nos podem oferecer apoio.

Na linguagem religiosa tradicional, a dor leva-nos ao âmago da natureza de Cristo e de Buda. Ultrapassamo-nos, embora continuando a ser quem somos, quando nos juntamos a uma grande visão com a profundidade da alma. Quando sofremos, somos convidados para uma grande reunião com os sofredores de toda a existência e, assim, expandimo-nos e descobrimos toda a dimensão da experiência. O sofrimento pode ensinar a nossa imaginação a libertar-se de uma au-to absorção, para se ligar com o mundo de um modo infinitamente mais importante.

Ver o sofrimento como um mistério, como o tormento de Deus, é compreender o que está no interior da natureza das coisas. Buda ensinou que a dor é causada por uma espécie de desejo,pela vontade própria ou talvez por estreitos apetites. Certamente que imaginamos o fim do sofrimento, como objectivo válido para a medicina ou para a assistência social. O grande físico Paracelso disse que, se não fôssemos tão ignorantes, poderíamos curar todas as doenças, sem excepção. Para dicifrarmos o mistério divino no sofrimento, não será preciso desistirmos, desencorajados, mas sim entendermos que esse sofrimento terá de ser lançado do local mais profundo.

Não sei explicar o sofrimento, mas posso sugerir maneiras modernas e antigas de reflectir sobre ele. Há um grande mistério teológico no modo como a dor redime, em como o sofrimento sentido por uma pessoa ajuda outro e em como alguns são chamados a sofrer e outros a viverem tranquilos. Por fím, pedem-nos que reconheçamos o mistério e abracemos como nosso, tudo aquilo que a vida nos oferece. O sofrimento é afinal redentor da dinvindade que se processa através de nós.

Não tenho a mínima dúvida que em certos momentos da minha vida recebi apoio, consolo e segurança insuspeitos e inexplicáveis da parte de uma qualquer presença espíritual. Não me custa acreditar que tenho um anjo-da-guarda. Se necessário for, só o mero facto de estar viva é prova suficiente para mim.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

PARADOXO


Duas noites passadas, acordei com o tiquetaque da chuva nas janelas: durante a noite, levantara-se uma ventania tremenda, a temperatura baixara e o vento soprava com bastante força. Cobrindo o céu de uma luz invernal. A chuva molhava os vidros, querendo molhar meu rosto adormecido de sonhos de moça perdida mas, também trazendo a saudade de tudo o que vivi.
Assim continuava a noite...as lembranças que nos fazem chorar ou sorrir e as emoções que nos dão vida.
Assim continuei pela noite fora, onde procurei encontrar um tema que praticamente não figura em nunhum dos meus textos. No meu pensamento eu chamo-lhe (o paradoxo do amor) ou ( a dor do desencontro). Em linhas gerais é o seguinte.
Toda a relação íntima em que podemos abrir-nos e conseguir o encontro e a entrega das coisas mais gratificantes que podemos viver. Nela procuramos contacto, amor e intimidade, porque são estas as situações que mais nos enriquecem, que nos fazem sentir vivos, as que nos enchem de força e de vontade.
O paradoxo começa quando nos damos conta de que, ao mesmo tempo, estas relações são precisamente as que nos provocam maior sofrimento e maior dor, muítissimo nais do que qualquer outra.
Quando nos abrimos à intimidade, ao amor, ao encontro, expomo-nos também a sofrer e a sentir dor.
A força que naturalmente nos impele a deixar-nos levar pelas nossas emoções e a gerar o encontro enfrenta a tendência natural de cuidar de nós para não sofrer; porque intuímos, com certeza, que se nos abrimos com uma peassoa isso concederá ao outro a possibilidade de nos ferir.
Todos temos uma personalidade, uma couraça que não quer assumir o risco de ser magoada e, portanto se fecha. Este é o trabalho que propomos: observar a nossa maneira especial de estar no mundo, termos consciência dos nossos papéis em que ficámos atolados.
O paradoxo continua porque não hà melhor oportunidade do que esta relação íntima potencialmente destrutiva para voltar a encontrar-nos e para desfazer as nossas máscaras habituais.
Assim, acabamos muitas vezes por resolver este paradoxo evitando o sofrimento, impedindo-nos o amor e privando-nos do encontro íntimo.
Na nossa intenção de dizer não à dor, dizemos não ao amor. E, o que é pior, dizemos que não a nós mesmos. O problema apresenta-se quando nos identificamos com a nossa couraça e nos sentimos seguros assim. Protegemo-nos dos nossos sentimentos incómodos aprendendo a não sentir, a desligar-nos das nossas necessidades, e as defesas tornam-se uma identidade que nos separa do que sentimos e nos impede de amar. Assim amanheceu!!!.E pensei. Quando um coração se parte, que barulho faz? Será o mesmo rumor abafado de uma esponja ensopada que cai ao chão, ou um silvo de um foguete molhado pela chuva? Eu sentia-me uma ave migratória, era hora de voltar ao ninho.

terça-feira, outubro 07, 2008

Lar doce lar


CILADA POR AMOR


Cilada por amor, é um abraço de perdão.

O amor que me prendia, era um fruto doce.

Muito doce, num mundo amargo, muito amargo.

Minha luta foi àrdua e dolorosa!

Dessas prisões dos sentidos.

Cheias de contradições e sentimentos.


Cilada por amor doi, o engano dera-lhe forma.

Nem levantarás outras vigias de desenganos.

Tua casa ruiu, partiu-se a viga mestra do telhado.

Nunca mais reconstruirás, estes muros de dor.

Em vez de construir a ponte.

Para chegar ao meu caminho.

Simplesmente isolei os tijolos.

Para não poder chegar a ti


Cilada por amor, é como o espelho que nos devolve a imagem.

O mundo é vazio, e a vida não valha a pena ser vivida.

É um cair sem me ferir, a descobrir a meta que quero.

Há alguém, em algum lugar, que pensa em nós.

E sente como nós e que, apesar da distância.

Está perto em espírito, então a esperança.

É que a dor e a saudade, se converta num jardim habitado

segunda-feira, setembro 29, 2008

OUTONO EM SINTRA


Outono de sol ameno que conduz à luz.

Folhas caindo, e meus cabelos prateados ao vento.

Bela tarde colorida, hà paz, hà alegria profunda.

Outono de céu azul, que nos deixa livres...


Minha mente vai relaxando olhando o horizonte.

Meus olhos se fecham na alegria da natureza.

Sinto a brisa no meu rosto.

Esquecendo o amor e desgostos.

Ao ver crianças brincando e sorrindo.


Encosto meu corpo cansado.

Donde posso olhar sem cair.

Onde penso sem me ferir.

Olho o céu e vejo um lindo manto.

De estrelas...E tudo existe.

Da existência de outro Outono.

Onde brilhava a estrela do teu meigo olhar.


E sobre a relva molhada.

Deito meus cabelos prateados.

Levanto-me e num sopro compreensivo.

Deito o resto ao tempo e ao vento.


Dou algumas gargalhadas.

Talvez algumas lágrimas.

O paraíso será num lugar melhor.

Onde o Outono reine.

E quebre o feitiço da solidão

terça-feira, setembro 23, 2008

HOJE




hoje tento libertar-me de todas as expectativas e ansiedades relativas ao futuro. Quem sabe se Deus não reservou para mim uma surpresa muito especial?!


Sinto o amor que flui dentro de mim. E lembro-me que há um mundo imenso a descobrir, dentro de mim. Sempre que alguma recordação se tornar dolorosa, pergunto a mim mesma: Quando é que tudo isto terá começado?.


Aquilo que agora estou a sentir, pode muito bem ser uma velha ferida que está gradualmente a sarar.Agora, neste preciso momento, procuro libertar-me de todas as memórias dolorosas que posso ter. Penso que a paz regressará ao meu coração e me sentirei profundamente aliviada. Alegro-me com as coincidências que por vezes sucedem na minha vida. Quem sabe se elas não são, no fundo, pequenos milagres. Da minha janela vejo a onda de amor que Deus espalhou pelo mundo. Deus ama-me, a mim e à criança que há no meu coração.

sábado, setembro 20, 2008

Sem receber nada em troca

Descobre o amor. Pega num sorriso e doa-o a quem jamais o teve...Pega um raio de sol e fá-lo voar lá onde reina a noite...Pega uma lágrima e pôe no rosto de quem jamais chorou...Pega a coragem e coloca-a no ânimo de quem não sabe lutar...Descobre a vida e conta a quem não sabe entendê-la... Pega a esperança e vive na sua luz...Busca a bondade e doa-a a quem não sabe doar...Descobre o amor e faz conhecer o mundo.

Tudo isto se aprende em poucas horas. Em olhares famintos não de pão mas, de carinho de amor. Em olhares de crianças que olham o mundo cheio de esperança de ternura. Por uma família do coração que os ame.

Jesus disse? vinde a mim as crianças, será delas o reino dos céus

Missa no Padre Gregório


segunda-feira, setembro 15, 2008

REZAR


Nenhuma Montanha é alta demais para tu escalares.
Tudo o que tens de fazer é ter um pouco de fé na escalada.
Nenhum rio é largo demais para conseguires atravessar.
Tudo o que tens de fazer é acreditar nisso quando rezares.

E então tu verás: a manhã chegará.
E todo o dia será radiante como o sol.
Todos os teus medos , serão dirigidos para mim.
Eu apenas quero que tu entendas...

Eu serei tua nuvem acima do céu.
Eu serei teu ombro quando tu chorares.
Eu ouvirei tuas vozes quando tu me chamares.

Eu sou o teu anjo...
E quando toda a esperança tiver acabado, estou aqui.
Não importa o quão longe tu estejas, estou perto.
Não faz diferença quem tu és.
Eu sou o teu anjo, sou o teu anjo.

Eu vi tuas lágrimas e ouvi tu chorares.
Tudo o que tu precisas é tempo.
Procura-me e tu me encontrarás.
Tu tens tudo e ainda estás na solidão
Não tem que ser desta maneira.
deixa-me mostrar-te um dia melhor...

E então tu verás: a manhã chegará.
E todos os teus dias serão radiantes como o sol.
Portanto, todos os teus medos, envia-os para mim.

E quando for a hora de enfrentar a tempestade.
Eu estarei lá a teu lado.

A misericórdia nos manterá a salvo e aquecidos.
E eu sei que sobreviveremos.
E quando parecer como se o fím estivesse aproximando-se.
Não ouses desistir da luta.
Apenas deposita tua confiança além do céu

sexta-feira, setembro 12, 2008

Preconceitos




Ataca os teus preconceitos
Para que eles não te ataquem.
Não é o que fazemos de vez em quando.
Mas o que fazemos dia a dia.

Que faz a diferença
Acredito que todos temos.
Dentro de nós.

A capacidade para uma aventura.
Mas maior aventura é enfrentar.

As responsabilidades de cada dia.

Mesmo que isso destrua a nossa alma.

O modo como vivemos é.

Afinal, um dos direitos.

Que nos restam.

Quando e se temos.

A oportunidade de escolher.

Temos de saber.

A que porto nos dirigimos.

Se queremos apanhar.

O vento certo.

Que nos leve até lá.

Saber o que está certo.

E não o fazer.

É a pior das cobardias.

Cada um faz o que deve.

Apesar das consequências pessoais.

Apesar dos obstáculos.

Perigos e pressões

E essa é a base.

De toda a moralidade.

Não podiamos saber.

No que iria dar.

Mas sabiamos.

Que tinha de ser feito.

terça-feira, setembro 09, 2008

JUVENÁLIA


De início não damos conta de nada, estamos convencidos de que a couraça ainda nos envolve totalmente, até que um dia, inesperadamente, por uma lembrança estúpida, sem sabermos porquê, damos por nós a chorar como umas crianças.

Por isso, quando digo que entre mim e ti se intrometeu uma diferença natural, é precisamente isso que quero dizer. Na época em que a minha couraça começou a formar-se, a tua já estava feita em farrapos. Tu não suportavas as minhas lágrimas de criança, e eu não suportava a tua inesperada dureza. Vivia escondida em buracos, e embora estivesse preparada para o facto de o teu temperamento mudar com a adolescência, quando essa mudança ocorreu foi-me muito difícil suportá-la. De repente, havia uma pessoa nova diante de mim e eu já não sabia como devia tratar essa pessoa. À noite, na cama, no momento de pensar na mãe, sentia-me feliz com os teus afagos, e com o que se estava a passar contigo. Eu sabia que me amavas.

Mas, de manhã, quando me batias por tudo e por nada, que depressão, que vontade de chorar!

Era criança não tinha culpa dos teus males, não conseguia encontrar em parte alguma a energia necessária para te fazer frente. E pensava, se um dia chegasses aos oitenta anos, eu me vingava da tua crueldade. Infelismente morreste perto dos cinquenta, e foi ai que eu soube quanto te amava também. Em todos os dias da minha vida recordo a tua beleza física mas, também o teu coração de pedra. Se chegasses aos oitenta anos, compreenderias que, nessa idade, as pessoas sentem-se como folhas em finais de Setembro. E assim saboriavas o teu castigo, por me bateres e me chamares Doninha. Para mim, o vento eras tu, a vitalidade conflituosa da tua adolescência. Alguma vez te apercebeste disso, minha querida? Vivemos na mesma árvore, mas em estações tão diferentes.

Lembro-me do dia da tua partida para a Suiça. Estávamos muito nervosas, não estávamos? Tu não quizeste que eu fosse contigo ao aeroporto, e a cada coisa que eu te dizia para levar, respondias: Vou para a Suiça, não vou para o deserto. À porta, quando te gritei com a minha voz odiosamente estridente: Tem cuidado contigo, sem sequer te voltares, despediste-te, dizendo: Deixa esse gajo e trata da minha rosa, e vai ter comigo.

Na altura, sabes, fiquei um tanto desiludida com essa despedida. Como sentimental que sou, esperava uma coisa diferente e mais banal, um beijo ou uma frase afectuosa. Só à noite, quando, sem conseguir adormecer, andava de roupão pela casa vazia, é que percebi que tratar da rosa queria dizer cuidar daquela parte de ti que continua a viver junto de mim, a parte feliz de ti.

E percebi que, na secura daquela ordem, não havia insensibilidade, mas a tensão extrema de uma pessoa que está quase a chorar. É a couraça de que falava no início do texto. Lembras-te do que eu te dizia nos últimos tempos em Luanda? As lágrimas que não saem depositam-se no coração, com o passar do tempo vão formando uma crosta e paralisam-no, como o calcário se encrosta e paralisa as engrenagens da máquina de lavar.

Bem sei que os meus exemplos extraídos do universo da cozinha, só te faziam rir e chamando-me de Doninha. Eu respondia...Tem paciência: cada pessoa vai buscar inspiração ao mundo que conhece melhor.

Sabes, ontem à noite, enquanto estava a ler sentada no cadeirão, ouvi de repente no quarto um ruído compassado, ergui a cabeça do livro e vi a tua imagem que sorria para mim. É a saudade. Até breve mana.

sábado, setembro 06, 2008

Grandes Pessoas

Às vezes construimos sonhos em cima de grandes pessoas...
O tempo passa...e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!

Outros


Natureza


quarta-feira, agosto 06, 2008

Sonhos


Na minha vida, tenho tido sonhos que guardei em mim durante nuito tempo e mudaram as minhas ideias: passaram e voltaram a passar por mim, como o vinho pela água, alterando a cor da minha alma. Os sonhos que têm iluminado o meu caminho e, ao longo do tempo, me têm dado coragem renovada para enfrentar alegremente a vida, têm sido a bondade, a beleza e a verdade...

Os objectivos triviais do esforço humano - Posses, êxito exterior, luxo - Sempre me pareceram desprezíveis. Penso que o trabalho mais importante que alguma vez fazemos, em todo nosso mundo, em toda a nossa vida, é feito dentro de quatro paredes no nosso lar.

Todos os pais e mães, seja qual for a sua posição na vida, podem dar o mais importante dos contributos, se imprimirem o espírito de serviço nas almas dos seus filhos, por forma a que as crianças cresçam empenhadas em fazer a diferença.

Desde criança, tento prosseguir os meus sonhos, e penso que é preciso tão pouco o que podemos fazer para ajudar quem sofre e está triste neste mundo - Os solitários, os despojados, os prisioneiros, os desprezados, os exilados, os física e espiritualmente doentes, os que têm frio, os famintos.

No entanto, podemos chegar àqueles que conhecemos com cortesia e bondade...Um presente inesperado, uma visita. Tratando-os com o respeito que merecem.

Prestando homenagem à sua coragem. Escutando as suas histórias. Porque toda a bondade se espraia num círculo irradiante. Vejam como, por toda a parte, as pessoas boas criam anéis de luz, que se deslocam, penetrando a escuridão, anéis que se ligam e entrelaçam . Afinal, o que tem mantido a raça humana neste velho Globo, apesar de todas as trágicas falhas da humanidade, se não a fé, os sonhos em novas possibilidades e a coragem de as defender?

O meu sonho, é o meu maior conforto a que posso recorrer, é pensar que o objectivo da minha vida é ajudar, de alguma maneira, a reduzir a ignorância espíritual, a degradação e a miseria da face desta terra maravilhosa. E acima de tudo: tento ser verdadeira para comigo própria. Não tenho a possibilidade de escolher como vou morrer. Nem quando.Só posso decidir como vou viver agora.

terça-feira, julho 22, 2008

Perdão


PERDÃO


Perdoar é esquecer a dor.

É aceitar o passado.

Pois este não irá mudar.

É aprender com os erros.

Cometidos.


E comprender o que aconteceu.

Perdoar dá-nos a chance.

De seguir em frente.

Procurando novos caminhos e desafios...

Perdoar é recomeçar com calma.

E ouvir as recordações do passado.

Será que podemos um dia.

Perdoar alguém que nos fez mal ?

Alguém que tinhamos como amigo.

E que nos decepcionou ?

Quem sabe se um dia saberei perdoar !

E por vezes sentir saudade



quinta-feira, julho 17, 2008

quarta-feira, julho 16, 2008

Violência Hurbana

Segunda Feira, 14 de junho de 2008. Caminhando onde é habitual 17h10m tive uma tentativa de violação. O medo pode matar, isso não é nenhuma novidade na medicina. A ansiede, que é a versão civilizada do medo, também mata. Os actos de violência, em qualquer de suas formas, desde violência, colectiva, é como o caso da guerra, dos atentados das violações de direitos, etc., até a violência individualizada, como são os assaltos, os estupros, a tortura, etc. Podem ser comparados à uma espécie de câncer da alma. Andando no sentido contrário de Mira Sintra, alheia nos meus pensamentos, senti alguém a correr atrás de mim. Não liguei na medida que andam várias pessoas por ali a correr...Quando de repente senti uns braços fortes rodearem-me o pescoço. Olhando para trás consegui verificar que se tratava dum jovem raça branca, pelos seus 19 a 20 anos. Nunca pensei saber, gritar daquela maneira mesmo com um murro na carra e de colarinho por ter sido operada à coluna. Submetida a acções de violência com um canivete apontado nas costas, mesmo quando me tapava a boca, para eu deixar de gritar, debatia-me com os pés e braços para não ser magoada. O jovem empurrava-me para o morro das àrvores, segurando-me com força nos braços, onde eu me debatia com os pés. Nesses momentos só existe a vítima o violador e Deus. Com a aproximação dum casal de idade com o cão, como eu não deixava de gritar e apontar para o jovem, o casal não se apercebia do que se estava a passar, quando chegaram ao pé de mim eu tremia, em pânico e em ansiedade entrei em choque. Quizeram chamar o 112 mas eu não deixei. Com o meu telemovel ligaram para várias pessoas da família e amigos mas ninguém atendeu, estava perdida e sózinha. Com o rosto dorido o corpo em estado traumático o casal acompanhou-me a casa. Conseguiram localizar o meu marido, onde rapidamente chegou a casa. Em seguida o meu quadro inicial evoluiu, de forma progressiva, mesmo quando fui à PSP de Rio de Mouro apresentar queixa, mandaram-me para o Cacém, pois lá é que tinham o arquivo dos violadores. Com a cara inchada, e uma série de alterações emocionais mais carecterísticas do transtorno Pós-traumático, tais como, a experimentação de lembranças intrusivas, meu olhar fixo e sempre cheio de lágrimas, as condutas de evitação, o meu desinteresse pelas coisas, distanciamento social, embotamento afectivo, perturbações nas relações interpessoais, e impulssiva. Passei a noite no hospital fiz vários exames a nível físico. Minha alma está doente, meu corpo está sobre tensão, só recordo a situação, os meus sentimentos são depressivos, tenho mudanças de humor, dificuldade para conciliar o sono. Tenho sobressaltos com ruídos ou movimentos. Tenho tendência para me isolar dos demais e sentimentos de culpa, auto-acusações. Peço a Deus ajuda meu querido Blog, porque deixei de ser eu

segunda-feira, julho 14, 2008

Importância

Na vida.
Não vale tanto.
O que temos.
Nem tanto importa.
O que somos.

Vale o que realizamos.
Com aquilo que possuímos.
E, acima de tudo.
Importa.
O que fazemos de nós.

terça-feira, julho 01, 2008

Rimas ao entardecer



A vida vou lembrando.


E afirmo no entardecer:


Cantando, rindo ou chorando.


Valeu a pena viver.




Junto a ti nunca supus.


Como fosse a solidão:


Só quando se extingue a luz.


Se conhece a escuridão.




Nevaram os meus cabelos.


Invernias doloridas.


Mas na alma meus sonhos belos.


São primaveras floridas.




Sofro da vida a batida.


Marco passo e só me resta.


Crer que na festa da vida.


Sou sempre o bombo da festa.




Há pesares silensiosos.


Mais eloquentes no entanto.


Que muitos ais clamorosos.


Entre dilúvios de pranto.




A mágoa que mais desola.


Mais punge e corrói é essa.


Que nunca ninguém consola.


Porque a ninguém se confessa.

segunda-feira, junho 23, 2008

O que vejo da minha janela


O que vejo da minha janela está dentro do meu coração!

Ontem, via um jardim maravilhoso, cheio de flores de espécies e cores variadas. No centro dos meus olhos, um lago de águas azuis da cor do céu, cheio de cisnes brancos nadando, enfeitando a paisagem e enfeitiçando meu olhar. Via também o arco-íris cortando o céu, disputando lugar ao sol.

Nos bancos espalhados pelo jardim, casais de namorados conversavam, fazendo declarações de amor eterno e outros passeavam de mãos dadas, aproveitando o pôr-do-sol alaranjado.

Nas copas das árvores, um bando de passarinhos gorjeava e outros enfileiravam nos fios de um lado a outro como se quizessem celebrar a liberdade comigo. Os anciões passeavam com as suas senhoras de braços dados, com os chapéus nas mãos e um largo sorriso nos lábios, fazendo-me acreditar que a vida no futuro seria muito melhor.

As crianças brincavam na relva com os seus pais, e a alegria era tanta que via através delas o futuro dos meus netos.

Mas hoje abri a janela e não vi nada, levei as mãos nos olhos e busquei a esperança de ontem e não a encontrei.

Só consegui ver uma floresta de pedras tentando alcançar o céu, crianças brincando presas em apartamentos, e outras disputando lugares nos semáforos da cidade.

Fechei os olhos, vivendo um mar de ansiedade, procurar dentro de mim o que ainda não possuia.

Despertar em mim a vontade de partilhar com Deus os sentimentos mais íntimos de felicidade, amor e equilibrio para a minha vida.

Com lágrimas nos olhos, fechei a minha janela.

terça-feira, maio 20, 2008

Caminhando


Sabado. Caminhava a passos lentos pela praia grande em Sintra. E pensava. O amor tem o seu próprio mistério, tentar desvendá-lo é um erro, tentar apressá-lo um crime. Se um dia destes te apetecer voltar para os meus braços e construir um sonho comigo, podes bater à porta porque estarei por aqui, mergulhada numa paz tranquila e nova que me ensinaste sem saber.

O amor é mesmo assim; damos aos outros o nosso melhor sem sequer o saber. E tudo o que damos nunca se perde, nada se perde, apenas se transforma e se guarda numa caixa que só o futuro conhece e desvenda.

Pode haver amor sem entendimento? Claro que pode. Assim como pode haver o maior entendimento sem uma réstia de amor. O que é verdadeiramente difícil é conseguir juntar as duas coisas.

E como é que sei tudo isto? Porque acredito possuir o mapa secreto daqueles que amo. E tenho o teu mapa dentro da minha cabeça e do meu coração.Todos os dias o estudo e todos os dias acompanho as suas mudanças. E mesmo quando, por pudor ou cerimónia, as guardo para mim, estou atenta e vigilante, porque eu sei que tenho um papel na tua vida e sei que tu tens um papel na minha. O meu, já o sei de cor. O teu, nem tu nem eu fazemos ideia, mas um dia, chegaremos lá. Eu pinto o mundo com palavras porque, como todos os sonhadores, gostava que o mundo fosse outro lugar, mais belo e mais fácil, menos sujo e injusto, com menos lixo nas ruas e no coração das pessoas. Pinto o mundo, não como ele é, mas como gosto de imaginar que pode ser.

Foram as pessoas que olharam o mundo e sonharam que ele podia ser diferente que o conseguiram mudar. Partiram em caravelas, inventaram a electricidade, construíram caminhos- de- ferro e aviões, transformaram desertos em jardins, florestas em cidades e foram à lua, mas não conseguiram transformar o homem por dentro, porque só há duas coisas que nunca mudam no coração dos homens: o ódio e o amor. Hoje não consigo fixar os olhos no mar, a luz está demasiado forte e, ao reflectir-se na água, irradia milhões de pontos de luz que cegam o olhar temerário. Se tu estivesses aqui, pintaria como uma louca, o dia inteiro, sem parar, até ao cair da noite. Não sou dona do tempo nem de nenhuma verdade, a não ser daquilo que sinto. Mas o que sinto está cá dentro, só eu o vejo, e mesmo que te explique com todas as palavras do mundo, nunca saberei se me expliquei bem e, caso o tenha feito, se entenderás o que te digo exactamente da forma como te quis dizer, por isso é que às vezes fico calada e espero que o tempo resolva os enigmas mais complexos - ou mais simples - da existência. Todos os olhos que me tentam prender se perdem no meu vazio, porque em nenhum vejo os teus olhos. Assim vou caminhando, e perdendo os meus pensamentos, no infinito mar.

sexta-feira, maio 02, 2008

Fuga


Um guerreiro da luz que confia de mais na sua inteligência acaba por subestimar o poder do adversário.

É preciso não esquecer: há momentos em que a força é mais eficaz que a sagacidade. E quando estamos diante de um certo tipo de violência, não há brilho, argumentos, inteligência ou charme que possam evitar a tragédia.

Por isso, o guerreiro nunca subestima a força bruta: quando ela é irracionalmente agressiva, retira-se do campo de batalha até que o inimigo desgaste a sua energia.

Contudo, é bom deixar bem claro: um guerreiro da luz nunca se acobarda. A fuga pode ser uma excelente arte de defesa, mas não pode ser usada quando o medo é grande.

Na dúvida, o guerreiro prefere enfrentar a derrota e depois curar as suas feridas - porque sabe que, se fugir, está a conferir ao agressor um poder maior do que ele merece.

Ele pode curar o sofrimento físico, mas será eternamente perseguido pela sua fraqueza espíritual. Perante alguns momentos difíceis e dolorosos, o guerreiro encara a situação desvantajosa com heróismo, resignação e coragem. Nós dizemos a verdade dolorosa ao próximo, porque a queremos esconder de nós próprios. Nós mostramos a nossa força, para que ninguem possa ver a nossa fragilidade. Por isso, sempre que estiver a julgar o seu irmão, tenha consciência de que é você quem está no tribunal.

Às vezes, esta consciência pode evitar uma luta que só trará desvantagens. Outras vezes, porém, não existe saída, resta apenas o combate desigual.

terça-feira, abril 29, 2008



Porto Santo. Uma passagem felis

Mente

Hoje estou angustiada,stressada,deprimida, só, enraivecida, estes sentimentos devem servir-me como um sério aviso de que estou mais uma vez a usar a minha voz mental e que devo mudar de direcção. Quando uso a ninha voz mental, nunca encontro respostas. Apenas prelongamentos do meu permanente estado de insegurança e de medo fundamentado nas usuais comparações por que oriento a minha vida.
Quando eu percebo a existência desta minha voz interior, essa descoberta liberta-me do sofrimento que inflige constantemente a mim própria e aos outros, pois posso deixar de ver o mundo através daquele meu eu exclusivamente criado pela minha mente

terça-feira, abril 15, 2008

LUZ PARA HOJE

Mais do que uma mão estendida.

Mais do que um sorriso, mais.

Do que a alegria do encontro.

O amor é a força espíritual.

Que uma pessoa recebe quando.

Descobre que existe outra.

Que acredita e confia nela.



O amor é a renúncia de dois egoismos.

E a soma de duas generosidades.





Entre o amor há sempre um reconfortante.

Espaço para as subtis diferenças.

E semelhanças, que conduzem.

Á competição ou à cedência.

E também há sempre espaço.

Tanto para a desilusão como.

Para o assombro.





Assim disse um nobre amor!!!



Por favor, vai-te tratar. Isso já é do foro psiquiatrico. Não há pachorra.





Como é reconfortante sentirmo-nos amados desta maneira, Não ter de ponderar os pensamentos, nem medir as palavras, mas deixá-las livres. Palavras ditas com amor, com um sopro compreensivo, onde deitou tudo o resto ao vento.

sexta-feira, abril 04, 2008

PÁRA

PÁRA!
O que andas a fazer!?
As montanhas não tremem à tua passagem.
E os rios não mudam de margem.
Só para te ver!

PÁRA!
Quem julgas que és!?
Lá porque tens fogo e ferro na alma.
Não tens o mundo.
Desmaiado aos teus pés!

PÁRA!
Pára para reflectir!
Quando já estiver tudo exterminado.
E olhares para o lado.
Como te irás sentir?

terça-feira, março 25, 2008

Calar a voz

Tenho horas em que não te falo. Não é porque esteja triste contigo. É apenas, não tenho nada a dizer ou simplesmente tenho mas não quero dizer nada. E se estou quieta, não fiques a pensar o porquê ou a sentires-te incomodado na minha quaze não presença.
Não questiones o que sinto apenas porque a minha voz se cala, ou o meu corpo estendido sem se mexer.
Nem sempre me é fácil. Os dias nem sempre me trazem fardo leve. Se ficar quieta, vou para longe. Imagino tudo igual mas de forma diferente.Eu sei, não perceber...Preciso, sabes? Deixar a imaginação voar fugir um pouco da realidade, esquecer, eu digo cá dentro, no fundo onde faz eco. Fingir que, faz de conta que. Deixa-me estar quieta. Dá-me a mão, fica assim, pertinho de mim sem ser preciso nada. Eu sei, são só duas mãos entrelaçadas. Mas são muito. E outras horas são tudo. Ou abraça-me para que cá por dentro se renove a esperança de que algumas coisas acabem bem, mesmo na vida real. Deixa que os braços se entrelacem em abraços apertados.
É que sabes? Tenho momentos em que sou muitas. Carrego a criança que dorme, preciso viver como a mulher que hoje sou e tenho o espírito da idosa que um dia serei.
Não me leves a mal. A vida nunca é fácil.

segunda-feira, março 24, 2008

GRITO

O grito não sai, está preso aqui dentro como se fosse agarrado por algo interior e mais forte do que eu mesma.
Não me consigo mexer, já não sinto dor. O meu coração já não está ferido, não sente nada, não tem nada.O abismo é só um ponto de fuga. Já não sinto nada daquilo que se está a passar á minha volta, tudo parece apenas tudo e nada parece apenas nada.
O meu coração aumenta de ritmo, bate cada vez mais rápido e mais forte, parece que vai saltar, mesmo parecendo que não o tenho. A minha cabeça pensa em várias coisas ao mesmo tempo, mas não pensa em nada. Sem muito pensar, levo-me para longe do agora e para tempos que eu própria já tinha esquecido. Lembro-me de tudo o que passei de mau, lembro-me de como eu gostava que as coisas corressem de forma diferente. Já estou no presente, regresso agora, volto aos tempos de hoje, afasto-me do meu corpo e observo-me como se fosse outro alguém que desconheço. Pergunto-me quem sou... Desconheço-me por completo.
Volto ao passado em que um dia fui feliz - Ainda me lembro dele. As lembranças, ai, são boas. África.
Sorrisos, alegria, mimos, constante coragem, emoção. Volto ao presente, lágrimas, tristeza, medo, dor, revolta. O meu futuro é incerto...Pergunto-me se existirá um futuro, as diferenças são tantas, parece que estou a viver o contrário do que era naquele passado tão feliz. Pergunto-me agora se aquilo realmente existiu, não quero que as certezas que tenho sejam realmente verdade. A palavra justiça não me faz sentido algum, sinto que ela não me deu significado ou motivos de existência para eu a ter em consideração. O passado para mim é um fantasma bom, o presente, um fantasma mau. Volto a interrogar-me em relação ao futuro, nada sei sobre ele...Incertezas, revoltas, sentidos pouco sentidos, confusa e realista, dor sem dor. A vida é uma escada...A minha escada é cansativa, será que um dia irei cair desta escada? Ou, finalmente, a vou subir de uma vez por todas.

segunda-feira, março 17, 2008

TRISTEZA

Pedaços de água no olhar.
De sonhos desfeitos em nada.
Cabelos em desalinho.
Onde brilham em torvelinho.
Pérolas de pranto ao luar.

Olhos tristes de quem sofreu.
Na vida, tormentos mil.
Silêncios a quem doeu.
Um amor que já morreu.
Ainda por começar.

Embalada nos braços fortes.
De uma recordação.
Vai tropeçando em pedaços.
vazios de um coração

Sonha, mulher menina, triste.
Limpa as lágrimas, sorri.
Também eu vivi morrendo.
E morri, vivendo em ti.

segunda-feira, março 03, 2008

ESTRELAS

Todavia, em Setembro, já eu tinha reparado que a farda me ficava toda a dançar, decidi ir ao médico. E do médico para o hospital de S.José foi um salto, um vírus instalara-se nos alvéolos, onde se reproduzira alegremente: uma pneumonia sem febre, sem tosse, mas não menos capaz de matar.
O tempo que passei no hospital não foi um período infeliz, havia sempre alguém a tratar de mim e a distrair-me sem nunca me obrigar a sair da cama. Travei amizade com duas senhoras do hospital, quando me visitavam juntamente com o Padre Fausto: estavam muito surpreendidas por nunca ninguém me ir vesitar. No dia em que saí trocamos moradas, promessas de voltarmos a ver-nos.
Era uma segunda semana de Outubro, eu andava pela cerca como em sonhos, a violência dos ruídos e dos movimentos atordoava-me, os meus passos eram frágeis, hesitantes.
No jardim, a minha roseira tinha florido - uma flor pequena, raquítica, já pronta para enfrentar o frio do inverno -, as folhas das árvores começava a amarelecer e na tigela do benfica, cheia de água, boiavam os cadáveres de algumas vespas e de um zângão. Bastara um mês de ausência para que o cheiro a mofo e a humidade invadissem a camarata.
O outono estava diante de mim, e, à minha volta, o vazio.
Já sentia o vento sul a enrrodilhar-se para lá das Serras, ouvia-o descer, prender-me no seu assobio e penetrar até aos ossos do crânio.
Não aguentava passar ali mais um Inverno, tinha de fugir. Parecia-me que tinha vivido vinte anos em dois anos, estava cansada de mais para continuar.
Na verdade, sabia que não seriam opções, mas fugas, sumiços, testos mal pousados em cima de uma panela. Uma parte de mim estaria ali a interpretar a ficção e a outra continuaria a andar pelo mundo, percorrendo as ruas com os passos meio vazios de Évora. Afogar-se-ia em todos os abismos, em todas as escuridões; esperaria com humildade confiante diante de todas as portas abertas, como um cão à espera de um dono que ainda não conhece.
Queria luz, esplendor.
Queria descobrir se a verdade existe, se é ela o eixo à volta do qual tudo gira como um caleidoscópio, ou então morrer.
Ao voltar para dentro, reparei que andava com mais ligeireza, a decisão de fugir fazia-me olhar para tudo com indiferença, quaze com nostalgia.
- Se as folhas caem - dizia eu - , tem de haver uma razão, a Natureza não é estúpida como os homens, e aquilo a que chamas ervas daninhas não sabem o que são; eu é que as julgo e as condeno, mas elas acham que são flores e ervas, tão bonitas e importantes como as outras todas.
Eu não vejo a alma do jardim, gritei um dia, furiosa, não vejo a alma de nada de nada!
Nos últimos dois dias, arrumei meticulosamente num saco algumas roupas e a escova de dentes; por cima de tudo, coloquei a velha Bíblia sem capa que me deram na Igreja.Por cima de mim, brilhavam as estrelas, as mesmas que, há alguns anos, tinham velado pela viagem da minha mãe. Será que as estrelas têm olhos , pensava, será que me vêem como nós as vemos a elas, será que têm um coração misterioso - podem influenciar os nossos actos.
Quando era miúda, antes de ir para a cama, insistia em ir à janela dar as boas noites à minha mãe que, segundo me tinham dito, fora viver lá para cima; se as nuvens, em certas noites, cobriam o céu, desatava a soluçar. Imaginava-a como uma fada de vestido comprido e leve de chiffon colorido, na cabeça trazia um cone luminoso, coberto por estrelinhas, tinha um rosto sereno, levemente divertido, e, em vez de pernas, via-se uma única esteira luminosa: Só assim me podia seguir, esvoaçando de estrela em estrela.
Será por isso que a minha alma se parece com a de um cão?
Será por isso que, desde sempre ando pela estrada da vida à mercê da inquietação feroz dos que não têm dono?

sábado, março 01, 2008

Oração

As noites são longas, nas noites de vento sul.Senti uma imensa vontade de rezar, embora sentada na casa de banho, a minha alma estava ajoelhada aos pés de Sto. Antonio. Fechei os olhos, deixei que a música também se misturasse comigo, lavasse a minha alma dos medos das culpas, me fizesse recordar sempre que eu era melhor do que pensava, mais forte do que julgava ser. Eu não me mexi. A minha cabeça dava voltas, sem perceber o que estava a acontecer. No colégio! Um som interrompeu o meu pensamento - um som agudo, longo, como se fosse uma flauta gigantesca. O meu coração deu um salto.
Veio outro som.E mais outro. Olhei para trás: e ele estava lá. Não via o seu rosto, porque o lugar era escuro - mas sabia que ele estava lá.
Levantei-me, e ele imterroupeu-me: Luisa! - disse com a voz cheia de emoção. - Fica onde estás. Eu obedeci. Que o grande pai me inspire - continuei. - Que o meu medo seja a minha oração desta noite. Na solidão da madrugada, eu rezava. Seria um agradecimento, ou uma súplica? - pensei, ao chegar à minha cama. Por acaso, as perguntas não surgiam todas da mesma forma, durante a noite? E se as perguntas não fossem mais do que a única forma de oração que nos é dada. Continuando a pensar no acaso, decidi ir até à varanda, olhei Sintra com a beleza da noite. Ainda estava muito escuro, o despertador marcava três horas da madrugada, em algumas casas ainda havia luzes acesas. De noite, o acaso tem de fazer frente a uma data de suplicantes: cada lâmpada acesa, uma inquietação, uma fractura, uma ponte que ficou suspensa; cada luz, uma memória sem páz, pensei, enquanto ia andando pela casa e o medo me atormentava. Ao chegar ao fím da sala, sentei-me na cadeira, e abri a janela da varanda, a brisa da noite passara, os rumores, os cheiros, tudo estava imóvel. Sentia-me como num teatro antes do ínicio do concerto, a orquestra já estava no seu lugar, o maestro estava firme em cima do meu armário: olhares, mente, coração, músculos, tudo estava à espera de poder explodir na harmonia do som.
Ainda era madrugada quando se ouviu o latir de um cão que ficava nas encostas de Fitares, e pouco depois um clarão aspergiu a abóbada escura do céu.
Não importa, por quê, por quem estou aqui?, como dissera alguém, - já que tudo se reproduz inexoravelmente, desde os bolores até aos elefantes?
Seria, portanto, filha da inexorabilidade?.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Magia

A vida ensinou-me muitas coisas - tentando manter o meu pensamento. Ensinou-me que podemos aprender, ensinou-me que podemos mudar, mesmo que pareça impossível.
É preciso correr riscos, falo para mim mesma. Só percebemos realmente o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça.
Deus dá-nos todos os dias - junto com o sol - um momento em que é possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não nos apercebemos desse momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual amanhã. Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na altura em que enfiamos a chave na porta, pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Mas esse momento existe - um momento onde toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres.
Às vezes, a felicidade é uma bênção - mas geralmente é uma conquista. O instante mágico do dia ajuda-nos a mudar, faz-nos ir em busca dos nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões. Mas tudo isso é passageiro e não deixa marcas. E, no futuro, poderemos olhar para trás com orgulho e fé.
Mas pobre de quem teve medo de correr riscos. Porque esse talvez não se decepcione nunca, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a seguir. Mas quando olhar para trás - porque olhamos sempre para trás - vao ouvir o seu coração dizer: O que fizeste com os milagres que Deus semeou nos teus dias? O que fizeste com os talentos que o teu mestre te confiou? Enterraste-os bem fundo numa cova, porque tinhas medo de perdê-los. Então, esta é a tua herança: a certeza que desperdiçaste a tua vida.
Pobre daquele que escuta estas plavras. Porque então acreditará em milagres, mas os instantes mágicos da vida já terão passado

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Silêncios

Começámos a andar muito de perto, tanto que os caminhos que escolhemos pareciam-nos quaze paralelos. Mas ao fím de pouco tempo já nos falavamos através do caminho; depois mais distantes, saudávamo-nos com a mão...

Houve lombas que se interpuseram, bifurcações, outras vozes da vida e das noites.

Silêncios...

De qualquer forma, nenhum outro amor, chegou a ocupar o lugar da tua na minha vida.
A mim também me fogem as horas e os dias se transformam em anos. Mas não te esqueço.
E nenhum pensamento que me tenhas dedicado deixou de chegar até mim planando nas asas do silêncio. Onde quer que estejas, aperto a tua mão.
Através da distância.

Com o meu carinho de sempre.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Antepassados

Que escolhas fizeram os nossos antepassados? Que fardos tiveram de carregar? E porquê tanta diferença nos pesos? Porque hà quem corre, leve como uma pena, e quem pelo contrário, não consegue sair do chão?

Foi com estes pensamentos que subi de novo ao sótão, ou seja arrecadação. O Sol de inverno já não aquecia o ar e, para não gelar, fechei a janelinha que dava para o telhado, onde via Sintra. Sentei-me de pernas cruzadas diante da mala aberta: não ficara lá grande coisa, algumas cartas poeirentas e um caderno do Fábio de aspecto mais recente abandonados. Eram os últimos vestígios. Para onde me levariam aquelas folhas de papel?
Tinha medo de ficar desiludida, se calhar não passavam de um maço de cartas banais, enviadas por pessoas quaisquer...algo começou a fazer efeito. Um simples postal dizia...regressamos na quinta-feira, no comboio das oito.
Levei-as para casa e coloquei-as em fila sobre a mesa da cozinha, mas já era tarde: como não me apetecia abri-las, ontem no final do dia, decidi esperar pela luz desta tarde cinzenta. Sentei-me na sala, incomodada com a música dos meus vizinhos do lado, não conseguia ler, nem escrever, só às quatro da tarde é que o silêncio caiu sobre o planalto de Sintra, quebrado aqui e ali pelo rouco de alguns camiões. Mais ao longe, ouvia-se o apito dos comboios de Meleças, pareciam estar a dar um pequeno concerto sob a neblina leve do inverno.
Que música será esta?, pensei, será a sinfonia da partida ou do regresso?

Na capa do caderno, uma paisagem de Inverno: em primeiro plano, as pegadas de um lobo na neve; ao centro, árvores com os ramos totalmente cobertos de neve; em fundo, fechando o horizonte - por baixo de um céu claro e luminoso - , uma cadeia montanhosa cintilante de gelo. Era um simples caderno para as contas das despezas domésticas. Talvez tenha sido por isso que o abri com ligeireza. Uma ligeireza que se transformou em gelo, mal vi a letra, e a quem pertencia. Lembrei-me de repente...aquele caderno foi-me dado pela minha tia Victória, irmã da minha mãe. Na primeira página, estava escrito: Poemas. Não me tinha sentido embaraçada ao folhear o caderno, nem ao ler a carta que ela escrevera pelo Natal, ao meu pai para Lisboa mas, diante daquele caderno, sentia-me perturbada e intimidada; nunca imaginara que minha mãe tivesse uma veia poética. Havia muitos poemas - uns curtos, outros muito longos. Li alguns, folheando ao acaso.


Medo

Não são os monstros que me metem medo.
Nem os assassinos.
Não tenho medo da noite.
Nem de aluviões ou cataclismos.
Nem dos castigos ou da morte.
Nem de um amor que não existe.
Só tenho medo.
Da tua mão minúscula Luisinha.
À procura da minha.
Do teu olhar terno.
Perguntando. Porquê?

Cândida

Toldou-me a vista, senti um aperto no peito: era como uma haste, um daqueles pauzinhos afiados que servem para matar os vampiros. A mão de alguém estava a empurrá-la com toda a força, trespassando-me a caixa torácica. O pauzinho enterrou-se mais um pouco, penetrando no diafragma, bastava desviar-se ligeiramente para a esquerda e perfurar-me-ia o pericárdio.
Aquela era a minha mãe.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Palavras de sempre

Somos o que somos por aquilo em que acreditamos.

A vida é uma grande corrida de bicicleta, cuja meta é cumprir a Lenda pessoal. Precisamos de Quatro Forças Invisíveis: amor, morte, poder e tempo.
É necessário amar, porque somos amados por Deus.
Estas Quatro Forças não podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, já que estão para além de qualquer controlo. Precisamos de as aceitar, e deixar que nos ensinem o que precisamos de aprender.
Nós vivemos num Universo que é, ao mesmo tempo, suficientemente gigantesco para nos envolver, e bastante pequeno para caber no nosso coração. Na alma do homem está a alma do mundo, o silêncio da sabedoria. Enquanto pedalamos em direcção à nossa meta, é sempre importante perguntarmo-nos: O que é que há de bonito no dia de hoje? O sol pode estar a brilhar, mas se a chuva estiver a cair, é importante recordar-se de que isso também significa que as nuvens negras, em breve, se vão dissipar. As nuvens dissipam-se, mas o Sol permanece o mesmo, e nunca desaparece - nos momentos de solidão, é importante lembrar-se disso.
Quando as coisas estiverem muito más, não nos podemos esquecer de que todas as pessoas já experimentaram isso, independentemente da raça, da cor, da situação social, das creças ou da cultura.
Uma bonita prece a Deus.
Ó Deus, reconheço-te nas provações por que estou a passar. Permite, ó Deus, que a tua satisfação seja a minha satisfação.
Que eu seja a Tua alegria, aquela alegria que um pai sente por um filho. E que eu me lembre de Ti com tanquilidade e determinação, mesmo quando é difícil eu dizer que Te amo.
O melhor a dar ao nosso inimigo é o perdão; ao nosso adversário a tolerância, a um amigo, o coração. A um filho, um bom exemplo, a um pai houra; a uma mãe, uma conduta de que ela se orgulhe. A nós próprios, respeito...E ser compassivo para com toda a gente.
Hoje vivi mais um dia, com amor.Para que, se ela acabar amanhã, possa ficar satisfeita comigo, e também quem me amou.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Ontem

O dia de ontem foi vivido, e pensado, intensamente; quase como um poema.
Cansada, cheguei da praia Grande -como se tivésse chegado a um sítio perdido na paisagem da imensa noite - pelas intermináveis e monótonas estradas que terminam, subitamente, em Rio de Mouro.
É-me sempre difícil chegar a Rio de Mouro. Aqui passo os meus dias; e, aqui, muitas vezes, volto à procura daquilo que sei ter morrido para sempre.
Quantas vezes me traiu, e amou, esta freguesia? Quantas vezes, com amargura, fugi dela?
O que destrói a terra destrói o corpo, disse alguém. A devastada paisagem fazia parte de um corpo cuja memória me é impossível apagar - corpo onde permanece ainda aceso o mistério da criança que fui.
Levantei-me cedo. Fui à junta médica mais uma vez. Almocei, meu relógio espíritual, mandou-me até ao mar. Sobre as rochas, à beira do Oceano, fez ouvir no povoado silencio de uma clara e serena tarde de Dezembro. O sol ia dissipando a transparente neblina e despindo a agreste paizagem dos veus da gaze que a envolviam. Cortavam o ar milhares de azas; pela terra os insectos zumbiam. As casas, pouco elevadas, brancas, amarelas, côr de rosa e azues, destacavam-se a pouco e pouco, d`entre as brumas, e recortavam-se umas no horizonte, outras no fundo escuro pinhal.
Lembrei-me, nesse instante, de alguém. Olho fixamente o fogo enquanto o passado também arde em mim - como um clarão de luz sobre o mar. Sinto que hà uma estranha eternidade naquilo que amámos e foi destruído.
Ao longe, as gaivotas em voo planado sulcam a salinidade aérea do mar. Encosto a cara ao vidro turvo da janela do carro e deixo passar o tempo. Onde meu olhar sombrio, parado, via a noite que caía com vagar; o mar arremassava-se, violento. Assim estavam meus sentimentos.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Janela

A vida corre tranquila do lado de fora da minha janela verde; oiço os comboios, os carros, a tosse dos velhos e o riso das crianças. O sol percorre o seu caminho atravessando o céu azul de Portugal, um dos mais belos do mundo inteiro. O meu olhar apanha um pássaro e voa para o Sul. Na minha mente, vejo o estuário do Tejo, sereno e grandioso, depois o rio Sado e continuo a caminho de África, sobrevoando as planícies Alentejanas, secas pela falta de chuva, com os seus sobreiros como mãos viradas para o Criador a pedir água, paz e protecção divina. Já não quero voar para o Norte, para a cidade da luz cinzenta que te come os dias enquanto trabalhas com o coração anestesiado.
Se ficar aqui fechada, em breve serei tolhida pelo frio e pelo sentimento de vazio e de derrota que me vai invadindo as horas do dia, à medida que a noite se aproxima. Por isso escrevo como quem voa e as minhas palavras são o voo daquele pássaro que há pouco cruzou a minha janela.
Antes fugir do que ficar, porque se aqui ficar serei tomada por um langor triste que antecede o esquecimento, como o último suspiro de um pássaro que prefere a morte à imobilidade. Mas também sei que fujo porque desejo que me sigas, que me procures, que a minha ausência te faça vir a9o meu encontro. As mulheres não foram feitas para correr; se o fazem, é para serem apanhadas.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Silêncio

O teu olhar chega primeiro mas o teu coração demora-se, porque, apesar do silêncio e da distância, agora real outra vez, ficas ainda por aí, espalhado pelos lugares por onde passeámos.
Nada guarda memória mais certa e fiel do que a minha da tua pele, por isso vais ficando no cheiro, no eco da voz, no sabor da boca, no toque dos dedos nas costas da mão, no olhar calado e fixo, atento e preso, muito mais eloquente que mil poemas de amor.
Não voltarei, e até ao fím dos nossos dias, ficamos os dois a pensar como é que somos suficientemente loucos para viver uma possibilidade e suficientemente sensatos para não sofrer com ela. Eu tento ter mais sorte, porque vou meia dúzia de voltas à frente: Já sei onde é mimha casa e já encontrei minha missão na terra. Tu procuras ainda muitos caminhos, por isso ainda não podes escolher nenhum. Gostava que a tua casa fosse meu coração. Se assim fosse, saberias sempre o caminho de volta, mesmo que o teu espírito de nómada e fugidio te levasse para os armários da casa de banho, ou almoçar com os amigos, ou para as ilhas Gregas e todos os lugares do mundo que queres tocar. Mas a minha morada é sempre a última.
Gostava que a tua casa fosse o meu coração, como um botão que encontrou o seu lugar, porque a nossa casa é o único lugar do mundo onde podemos descansar, onde nos compreendem mesmo quando nós não nos conseguimos perceber.
A nossa casa é onde ninguém faz barulho quando estamos a dormir e ninguem nos acorda a meio da noite. Não tenho portas blindadas nem uma estrutura à prova de sismos, mas o meu sistema de aquecimento central é o melhor do mundo e acredita que nunca, mas nunca mais, te irias sentir sózinho ou perdido.
Apetecia-me inundar a tua vida de sonhos, apetecia-me cobrir-te de palavras com sentido, e outros presentes que te enchessem de mim, mas controlei-me como pude, porque já aprendi que não podemos dar mais aos outros do que eles estão habituados a receber. Sabes como sou impetuosa, voluntariosa, impulsiva. Sabes como luto pelo que sonho, como me dedico a tudo aquilo em que acredito. E isso faz com que tenhas medo de mim. Sou demasiado directa, damasiado óbvia, só aguento o jogo da sedução logo no ínicio. Depois a rotina e tudo mais cansa-me e avanço sem estratégia. Todas as mulheres, por mais seguras e maduras que sejam; precisam, acima de tudo, de se sentirem amadas. Acima do respeito, do reconhecimento, da estima e da amizade, elas precisam de sentir amor.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Quinta da Letrada

Pela manhã, ouvia a música que vinha do fundo da minha solidão. A quinta chamando-me sempre. É quaze uma música aquática, arestas de sangue, medrosos dedos tamborilando nos vidros poeirentos. Teu nome, este som frio de árvores esfacelando a cal das paredes. Escrevo com o medo e o susto dentro de cada palavra. A vida atinge a espiral vertiginosa do dia. É esta palavra que me serve para nomear e não outra: medo.
Os textos progridem com a desolação dos meus sentimentos feridos, e com a desolação da casa, latejam sobre o computador, doem-me os dedos e os olhos, e o meu coração desgasto pela dor, pela doença.
A casa foi abandonada, permanece vazia, duma janela avista-se outra janela. O interior é húmido e escuro. Onde uma porta enquadra outra porta não se pressentem mais sinais de vida. Apenas flutuam aromas, presenças ténues de corpos. O olhar demora-se sobre as geometrias musgosas dos tectos, uma sombra desliza junto ao quarto que foi dela, o estuque esfarela-se, cai. Ouve-se um rumor misterioso de poços, de insectos por dentro das paredes, o olhar aprende a ver na penunbra esverdeada das salas. Apura-se o ouvido e o tacto quaze consegue delinear a presença dos mortos, perco o medo, caminho de quarto em quarto. Consigo chegar à porta do quarto de infância, abroa. Alguém fotografa alguem, o espelho acende o meu reflexo. Não me reconheço nele, existe uma saída secreta que eu utilizava. Cresci com a casa, a infância desapareceu num recanto quaze inacessível da memória. Nada resta da travessia alegre dos corpos que nela viveram, nem mesmo se encontram sulcos de chuva nos soalhos alongados, lavados com sabão amarelo. Nem ossos de alguma ave que tenha servido de alimento, nem cinza ou pedaços de carvão, restos de gordura, nada. A luz continua a entrar pelas frestas das janelas mal fechadas. A desolação insinua-se até à medula das madeiras. O meu olhar triste e choroso escolhe algumas imagens da casa, únicos sinais guardados na meticulosa memória de quem com ela viveu. Continuei o meu caminho, o silêncio e as sombras deslizam à minha volta. Espreitam por cima do meu ombro para verem os meus rascunhos.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Dispersos de Milfontes/ 1978/79

Outras feridas.
traços de répteis incandescentes pelas dunas, hastes quebradas, excrementos sinalizando com rigor apertados caminhos. Areias de cor indecisa.
São bons estes lugares de cinza, para a solidão insuspeita dos pássaros. Da boca das areias desmonorando-se irrompem fosforosos bichos, adocicados corpos, um rosto de fogo encima o leite vagaroso das nuvens, depois, ouvem-se os nomes dos barcos, e do vento uma voz explode, fende, desfaz a tempestade, teu corpo acalma por cima do misterioso espelho, mão na mão, percorremos todas as águas, conhecemos os domínios húmidos dos monstros marinhos e a loucura dos peixes cegos, que deu nome à nossa amizade e às cidades costeiras. Outras feridas alastram subitamente no fulcro da memória outras noites atravessam-me. Semeiam pelo corpo flores e pânico. Falo com os barcos postos-a-seco, das salivas marinhas cresce uma quilha enfurecida, a escrita é um marulhar incessante, imito a paisagem como se imitasse, ou te escrevesse.
Teu rosto dilui-se nos ossos da página, contamina as cartilagens das sílabas, resta-me o fingimento sibilante das palavras. Caminho pelo interior das dunas, apago o rasto de tinta acetinada, sou terra sem texto onde não encontro água. Só noite e um rumor imperceptível no coração. Mais nada.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Pouco mais há a dizer

Pouco mais há a dizer.Caminho largando os últimos resíduos da memória. Fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. A grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegrias. Mas estou quaze sempre triste. Vejo algumas fotografias minhas do passado, revelam-me que noutros lugares já estivera triste. Por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui.Água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. Este sol queimando a pele das plantas. Caminho pelos textos e reparo em tudo isto. O que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. O mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem . Hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer sofrimento. Outra memória vai tomando forma, assusta-me, ainda quaze nada aconteceu e já envelheci um pouco. Um jogo de estilhaços é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. As fotografias e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os desastres dos recomeçados regressos. Mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida vibrou em mim. Um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. Nem mesmo a vida, nenhuma morte. na mesma posição, reclinada sobre o meu frágil corpo, recomeço a escrever. Estou de novo ocupada em esquecer-me. A escrita é precária morada para o vaguear do coração. Resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente, sem queixumes. Anoitece ou amanhece, tanto faz.

terça-feira, julho 31, 2007

É tarde

É tarde meu amor. Estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva do meu corpo sofrido. Agora, as minhas saudades trituram-me, cospem-me, interrompem o sono.
Habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais...e no ventre impossível das cidades nocturnas. A solidão tem dias mais cruéis.
Tentei ser tua, amar-te e amar o falso ouro...quis ser grande e morrer contigo, enfeitar-me em luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda...cantar-te os gestos com ternura, mas não.
Águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco. Em mim a lama...e o visco inocente dos teus náufragos sem nome de rua, nem estátua-de-jardim-público.
Aceito o desafio do teu amor? Na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição, apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam.

sábado, junho 02, 2007

Alguém

Amor é muito mais do que hábito, é sobretudo tempo. E quando se ama, há sempre dúvidas e medos, há sempre uma vontade secreta de outros desejos, de outras viagens, mas vem o tempo e decide por nós aquilo que não somos capazes.
Quando se ama alguém tem-se sempre tempo para essa pessoa. E se ela não vem ter connosco, nós esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. E aprendemos a respirar na espera, a viver nela, afeiçoando-nos a um sonho como se fosse verdade. A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar. O amor na espera ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que seja possível. E se calhar é por tudo isso que já aprendi a esperar, confiando à vida tudo o que não sei, ou não posso escolher.
É mais fácil esperar do que desistir. É mais fácil desejar do que perder. E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.
Olho para o futuro e sonho com ele. Diante dos meus olhos desenha-se uma casa, um jardim, oiço o cantar dos pássaros e o riso das crianças; cheira a alecrim e a alfazema, já tenho cabelos brancos que às vezes prendo num carrapito. E ao meu lado, todas as manhãs, acordas devagar, abres os olhos e mergulhas nos meus. Vivemos na mesma casa e partilhamos os mesmos sonhos. Vivemos um presente fácil, porque sonhamos um futuro bom. Vivemos um com o outro e também um para o outro.O tempo é o que queremos fazer dele. Assim como um presente, um presente que podemos desembrulhar todos os dias. E o futuro é a mistura dos dois. Dois em um como duas metades da mesma laranja, num mundo feito à nossa medida, ao sabor dos sonhos. Basta querer.

segunda-feira, maio 28, 2007

DEPOIS DE ALGUM TEMPO

Já pensaram que a existência humana é tantas vezes assim? Passamos dias, semanas, meses , a construir os nossos sonhos e, num breve instante, alguém tropeça neles e tudo se desfaz e desmorona, numa sucessão de azares impossível de travar.
Quando o meu dominó começa a cair, junto-lhe mais peças na cauda e aproveito para limpar fantasmas na enxurrada. Ao menos sofro tudo de uma vez, condenso a frustração num par de dias e fico a enxaguar a tristeza até ela secar ao sol.
Depois, com muita calma, começo a montá-lo outra vez e, aos poucos, vejo-o a crescer sózinho, como se o embate que fez cair as peças tivesse o poder de as levantar.
A esta capacidade rara de transformar problemas em soluções e encontrar novos caminhos em encruzilhadas já chamei persistência e sentido de justiça.
Sou e serei a mulher mais persistente que se cruzou no teu caminho, nunca conhecerás outra que acredite tanto na justiça dos seus sonhos e que, por isso mesmo, nunca desista deles.
Cada escravo carrega a chave da sua liberdade. A minha está perdida no fundo do mar. Do meu mar de dúvidas, de solidão, de incertezas, por detrás do meu muro de auto-suficiência onde me escondo, imaginando-me protegida por uma armadura, porque cresci sozinha num mundo que me era estranho e agora se tornou familiar, mas que não faz parte do meu passado nem combina bem com a minha herança genética. Por mais fria que eu tenha me mostrado ao crescer, entregue a mim mesma em colégios austeros de pardes escuras e raparigas fardadas a rigor, por mais fleuma portuguesa e formalidades que me tenham incutido durante esses longos e solitários anos de crescimento e aprendizagem, o meu sangue é português e foi aqui perto que eu nasci. Como acontece a todas as mulheres, Há várias dentro de mim: Há a que sonha em abraçar o mundo e há a que quer um lar e precisa de colo: Há a romântica que sabe tocar a minha alma com enorme cuidado e sensibilidade.Há a cerebral que adora o campo, onde todos pensam que o trabalho está acima de tudo, a emotiva que namora com Sintra e gosta de se perder nas suas ruas estreitas, respirando o ar do oeste, sob o sol que quaze nunca me abandona. Tantas mulheres numa só! E eu sem saber qual quero ser, sem poder escolher...É muito difícil viver assim, sobretudo com a lucidez que sempre me acompanhou, sabendo que todas são verdade, que todas vivem em mim.
A minha chave está perdida, devia tentar encontá-la...Sou assim, gosto de acreditar que tudo pode ser possível, que os meus sonhos, se forem bons para mim e o melhor para o mundo, se podem realizar.
Tenho a sorte de ter nascido um espírito livre. Ou de me ter tornado um espírito livre.