terça-feira, abril 29, 2008
Mente
Hoje estou angustiada,stressada,deprimida, só, enraivecida, estes sentimentos devem servir-me como um sério aviso de que estou mais uma vez a usar a minha voz mental e que devo mudar de direcção. Quando uso a ninha voz mental, nunca encontro respostas. Apenas prelongamentos do meu permanente estado de insegurança e de medo fundamentado nas usuais comparações por que oriento a minha vida.
Quando eu percebo a existência desta minha voz interior, essa descoberta liberta-me do sofrimento que inflige constantemente a mim própria e aos outros, pois posso deixar de ver o mundo através daquele meu eu exclusivamente criado pela minha mente
Quando eu percebo a existência desta minha voz interior, essa descoberta liberta-me do sofrimento que inflige constantemente a mim própria e aos outros, pois posso deixar de ver o mundo através daquele meu eu exclusivamente criado pela minha mente
terça-feira, abril 15, 2008
LUZ PARA HOJE
Mais do que uma mão estendida.
Mais do que um sorriso, mais.
Do que a alegria do encontro.
O amor é a força espíritual.
Que uma pessoa recebe quando.
Descobre que existe outra.
Que acredita e confia nela.
O amor é a renúncia de dois egoismos.
E a soma de duas generosidades.
Entre o amor há sempre um reconfortante.
Espaço para as subtis diferenças.
E semelhanças, que conduzem.
Á competição ou à cedência.
E também há sempre espaço.
Tanto para a desilusão como.
Para o assombro.
Assim disse um nobre amor!!!
Por favor, vai-te tratar. Isso já é do foro psiquiatrico. Não há pachorra.
Como é reconfortante sentirmo-nos amados desta maneira, Não ter de ponderar os pensamentos, nem medir as palavras, mas deixá-las livres. Palavras ditas com amor, com um sopro compreensivo, onde deitou tudo o resto ao vento.
Mais do que um sorriso, mais.
Do que a alegria do encontro.
O amor é a força espíritual.
Que uma pessoa recebe quando.
Descobre que existe outra.
Que acredita e confia nela.
O amor é a renúncia de dois egoismos.
E a soma de duas generosidades.
Entre o amor há sempre um reconfortante.
Espaço para as subtis diferenças.
E semelhanças, que conduzem.
Á competição ou à cedência.
E também há sempre espaço.
Tanto para a desilusão como.
Para o assombro.
Assim disse um nobre amor!!!
Por favor, vai-te tratar. Isso já é do foro psiquiatrico. Não há pachorra.
Como é reconfortante sentirmo-nos amados desta maneira, Não ter de ponderar os pensamentos, nem medir as palavras, mas deixá-las livres. Palavras ditas com amor, com um sopro compreensivo, onde deitou tudo o resto ao vento.
sexta-feira, abril 04, 2008
PÁRA
PÁRA!
O que andas a fazer!?
As montanhas não tremem à tua passagem.
E os rios não mudam de margem.
Só para te ver!
PÁRA!
Quem julgas que és!?
Lá porque tens fogo e ferro na alma.
Não tens o mundo.
Desmaiado aos teus pés!
PÁRA!
Pára para reflectir!
Quando já estiver tudo exterminado.
E olhares para o lado.
Como te irás sentir?
O que andas a fazer!?
As montanhas não tremem à tua passagem.
E os rios não mudam de margem.
Só para te ver!
PÁRA!
Quem julgas que és!?
Lá porque tens fogo e ferro na alma.
Não tens o mundo.
Desmaiado aos teus pés!
PÁRA!
Pára para reflectir!
Quando já estiver tudo exterminado.
E olhares para o lado.
Como te irás sentir?
terça-feira, março 25, 2008
Calar a voz
Tenho horas em que não te falo. Não é porque esteja triste contigo. É apenas, não tenho nada a dizer ou simplesmente tenho mas não quero dizer nada. E se estou quieta, não fiques a pensar o porquê ou a sentires-te incomodado na minha quaze não presença.
Não questiones o que sinto apenas porque a minha voz se cala, ou o meu corpo estendido sem se mexer.
Nem sempre me é fácil. Os dias nem sempre me trazem fardo leve. Se ficar quieta, vou para longe. Imagino tudo igual mas de forma diferente.Eu sei, não perceber...Preciso, sabes? Deixar a imaginação voar fugir um pouco da realidade, esquecer, eu digo cá dentro, no fundo onde faz eco. Fingir que, faz de conta que. Deixa-me estar quieta. Dá-me a mão, fica assim, pertinho de mim sem ser preciso nada. Eu sei, são só duas mãos entrelaçadas. Mas são muito. E outras horas são tudo. Ou abraça-me para que cá por dentro se renove a esperança de que algumas coisas acabem bem, mesmo na vida real. Deixa que os braços se entrelacem em abraços apertados.
É que sabes? Tenho momentos em que sou muitas. Carrego a criança que dorme, preciso viver como a mulher que hoje sou e tenho o espírito da idosa que um dia serei.
Não me leves a mal. A vida nunca é fácil.
Não questiones o que sinto apenas porque a minha voz se cala, ou o meu corpo estendido sem se mexer.
Nem sempre me é fácil. Os dias nem sempre me trazem fardo leve. Se ficar quieta, vou para longe. Imagino tudo igual mas de forma diferente.Eu sei, não perceber...Preciso, sabes? Deixar a imaginação voar fugir um pouco da realidade, esquecer, eu digo cá dentro, no fundo onde faz eco. Fingir que, faz de conta que. Deixa-me estar quieta. Dá-me a mão, fica assim, pertinho de mim sem ser preciso nada. Eu sei, são só duas mãos entrelaçadas. Mas são muito. E outras horas são tudo. Ou abraça-me para que cá por dentro se renove a esperança de que algumas coisas acabem bem, mesmo na vida real. Deixa que os braços se entrelacem em abraços apertados.
É que sabes? Tenho momentos em que sou muitas. Carrego a criança que dorme, preciso viver como a mulher que hoje sou e tenho o espírito da idosa que um dia serei.
Não me leves a mal. A vida nunca é fácil.
segunda-feira, março 24, 2008
GRITO
O grito não sai, está preso aqui dentro como se fosse agarrado por algo interior e mais forte do que eu mesma.
Não me consigo mexer, já não sinto dor. O meu coração já não está ferido, não sente nada, não tem nada.O abismo é só um ponto de fuga. Já não sinto nada daquilo que se está a passar á minha volta, tudo parece apenas tudo e nada parece apenas nada.
O meu coração aumenta de ritmo, bate cada vez mais rápido e mais forte, parece que vai saltar, mesmo parecendo que não o tenho. A minha cabeça pensa em várias coisas ao mesmo tempo, mas não pensa em nada. Sem muito pensar, levo-me para longe do agora e para tempos que eu própria já tinha esquecido. Lembro-me de tudo o que passei de mau, lembro-me de como eu gostava que as coisas corressem de forma diferente. Já estou no presente, regresso agora, volto aos tempos de hoje, afasto-me do meu corpo e observo-me como se fosse outro alguém que desconheço. Pergunto-me quem sou... Desconheço-me por completo.
Volto ao passado em que um dia fui feliz - Ainda me lembro dele. As lembranças, ai, são boas. África.
Sorrisos, alegria, mimos, constante coragem, emoção. Volto ao presente, lágrimas, tristeza, medo, dor, revolta. O meu futuro é incerto...Pergunto-me se existirá um futuro, as diferenças são tantas, parece que estou a viver o contrário do que era naquele passado tão feliz. Pergunto-me agora se aquilo realmente existiu, não quero que as certezas que tenho sejam realmente verdade. A palavra justiça não me faz sentido algum, sinto que ela não me deu significado ou motivos de existência para eu a ter em consideração. O passado para mim é um fantasma bom, o presente, um fantasma mau. Volto a interrogar-me em relação ao futuro, nada sei sobre ele...Incertezas, revoltas, sentidos pouco sentidos, confusa e realista, dor sem dor. A vida é uma escada...A minha escada é cansativa, será que um dia irei cair desta escada? Ou, finalmente, a vou subir de uma vez por todas.
Não me consigo mexer, já não sinto dor. O meu coração já não está ferido, não sente nada, não tem nada.O abismo é só um ponto de fuga. Já não sinto nada daquilo que se está a passar á minha volta, tudo parece apenas tudo e nada parece apenas nada.
O meu coração aumenta de ritmo, bate cada vez mais rápido e mais forte, parece que vai saltar, mesmo parecendo que não o tenho. A minha cabeça pensa em várias coisas ao mesmo tempo, mas não pensa em nada. Sem muito pensar, levo-me para longe do agora e para tempos que eu própria já tinha esquecido. Lembro-me de tudo o que passei de mau, lembro-me de como eu gostava que as coisas corressem de forma diferente. Já estou no presente, regresso agora, volto aos tempos de hoje, afasto-me do meu corpo e observo-me como se fosse outro alguém que desconheço. Pergunto-me quem sou... Desconheço-me por completo.
Volto ao passado em que um dia fui feliz - Ainda me lembro dele. As lembranças, ai, são boas. África.
Sorrisos, alegria, mimos, constante coragem, emoção. Volto ao presente, lágrimas, tristeza, medo, dor, revolta. O meu futuro é incerto...Pergunto-me se existirá um futuro, as diferenças são tantas, parece que estou a viver o contrário do que era naquele passado tão feliz. Pergunto-me agora se aquilo realmente existiu, não quero que as certezas que tenho sejam realmente verdade. A palavra justiça não me faz sentido algum, sinto que ela não me deu significado ou motivos de existência para eu a ter em consideração. O passado para mim é um fantasma bom, o presente, um fantasma mau. Volto a interrogar-me em relação ao futuro, nada sei sobre ele...Incertezas, revoltas, sentidos pouco sentidos, confusa e realista, dor sem dor. A vida é uma escada...A minha escada é cansativa, será que um dia irei cair desta escada? Ou, finalmente, a vou subir de uma vez por todas.
segunda-feira, março 17, 2008
TRISTEZA
Pedaços de água no olhar.
De sonhos desfeitos em nada.
Cabelos em desalinho.
Onde brilham em torvelinho.
Pérolas de pranto ao luar.
Olhos tristes de quem sofreu.
Na vida, tormentos mil.
Silêncios a quem doeu.
Um amor que já morreu.
Ainda por começar.
Embalada nos braços fortes.
De uma recordação.
Vai tropeçando em pedaços.
vazios de um coração
Sonha, mulher menina, triste.
Limpa as lágrimas, sorri.
Também eu vivi morrendo.
E morri, vivendo em ti.
De sonhos desfeitos em nada.
Cabelos em desalinho.
Onde brilham em torvelinho.
Pérolas de pranto ao luar.
Olhos tristes de quem sofreu.
Na vida, tormentos mil.
Silêncios a quem doeu.
Um amor que já morreu.
Ainda por começar.
Embalada nos braços fortes.
De uma recordação.
Vai tropeçando em pedaços.
vazios de um coração
Sonha, mulher menina, triste.
Limpa as lágrimas, sorri.
Também eu vivi morrendo.
E morri, vivendo em ti.
segunda-feira, março 03, 2008
ESTRELAS
Todavia, em Setembro, já eu tinha reparado que a farda me ficava toda a dançar, decidi ir ao médico. E do médico para o hospital de S.José foi um salto, um vírus instalara-se nos alvéolos, onde se reproduzira alegremente: uma pneumonia sem febre, sem tosse, mas não menos capaz de matar.
O tempo que passei no hospital não foi um período infeliz, havia sempre alguém a tratar de mim e a distrair-me sem nunca me obrigar a sair da cama. Travei amizade com duas senhoras do hospital, quando me visitavam juntamente com o Padre Fausto: estavam muito surpreendidas por nunca ninguém me ir vesitar. No dia em que saí trocamos moradas, promessas de voltarmos a ver-nos.
Era uma segunda semana de Outubro, eu andava pela cerca como em sonhos, a violência dos ruídos e dos movimentos atordoava-me, os meus passos eram frágeis, hesitantes.
No jardim, a minha roseira tinha florido - uma flor pequena, raquítica, já pronta para enfrentar o frio do inverno -, as folhas das árvores começava a amarelecer e na tigela do benfica, cheia de água, boiavam os cadáveres de algumas vespas e de um zângão. Bastara um mês de ausência para que o cheiro a mofo e a humidade invadissem a camarata.
O outono estava diante de mim, e, à minha volta, o vazio.
Já sentia o vento sul a enrrodilhar-se para lá das Serras, ouvia-o descer, prender-me no seu assobio e penetrar até aos ossos do crânio.
Não aguentava passar ali mais um Inverno, tinha de fugir. Parecia-me que tinha vivido vinte anos em dois anos, estava cansada de mais para continuar.
Na verdade, sabia que não seriam opções, mas fugas, sumiços, testos mal pousados em cima de uma panela. Uma parte de mim estaria ali a interpretar a ficção e a outra continuaria a andar pelo mundo, percorrendo as ruas com os passos meio vazios de Évora. Afogar-se-ia em todos os abismos, em todas as escuridões; esperaria com humildade confiante diante de todas as portas abertas, como um cão à espera de um dono que ainda não conhece.
Queria luz, esplendor.
Queria descobrir se a verdade existe, se é ela o eixo à volta do qual tudo gira como um caleidoscópio, ou então morrer.
Ao voltar para dentro, reparei que andava com mais ligeireza, a decisão de fugir fazia-me olhar para tudo com indiferença, quaze com nostalgia.
- Se as folhas caem - dizia eu - , tem de haver uma razão, a Natureza não é estúpida como os homens, e aquilo a que chamas ervas daninhas não sabem o que são; eu é que as julgo e as condeno, mas elas acham que são flores e ervas, tão bonitas e importantes como as outras todas.
Eu não vejo a alma do jardim, gritei um dia, furiosa, não vejo a alma de nada de nada!
Nos últimos dois dias, arrumei meticulosamente num saco algumas roupas e a escova de dentes; por cima de tudo, coloquei a velha Bíblia sem capa que me deram na Igreja.Por cima de mim, brilhavam as estrelas, as mesmas que, há alguns anos, tinham velado pela viagem da minha mãe. Será que as estrelas têm olhos , pensava, será que me vêem como nós as vemos a elas, será que têm um coração misterioso - podem influenciar os nossos actos.
Quando era miúda, antes de ir para a cama, insistia em ir à janela dar as boas noites à minha mãe que, segundo me tinham dito, fora viver lá para cima; se as nuvens, em certas noites, cobriam o céu, desatava a soluçar. Imaginava-a como uma fada de vestido comprido e leve de chiffon colorido, na cabeça trazia um cone luminoso, coberto por estrelinhas, tinha um rosto sereno, levemente divertido, e, em vez de pernas, via-se uma única esteira luminosa: Só assim me podia seguir, esvoaçando de estrela em estrela.
Será por isso que a minha alma se parece com a de um cão?
Será por isso que, desde sempre ando pela estrada da vida à mercê da inquietação feroz dos que não têm dono?
O tempo que passei no hospital não foi um período infeliz, havia sempre alguém a tratar de mim e a distrair-me sem nunca me obrigar a sair da cama. Travei amizade com duas senhoras do hospital, quando me visitavam juntamente com o Padre Fausto: estavam muito surpreendidas por nunca ninguém me ir vesitar. No dia em que saí trocamos moradas, promessas de voltarmos a ver-nos.
Era uma segunda semana de Outubro, eu andava pela cerca como em sonhos, a violência dos ruídos e dos movimentos atordoava-me, os meus passos eram frágeis, hesitantes.
No jardim, a minha roseira tinha florido - uma flor pequena, raquítica, já pronta para enfrentar o frio do inverno -, as folhas das árvores começava a amarelecer e na tigela do benfica, cheia de água, boiavam os cadáveres de algumas vespas e de um zângão. Bastara um mês de ausência para que o cheiro a mofo e a humidade invadissem a camarata.
O outono estava diante de mim, e, à minha volta, o vazio.
Já sentia o vento sul a enrrodilhar-se para lá das Serras, ouvia-o descer, prender-me no seu assobio e penetrar até aos ossos do crânio.
Não aguentava passar ali mais um Inverno, tinha de fugir. Parecia-me que tinha vivido vinte anos em dois anos, estava cansada de mais para continuar.
Na verdade, sabia que não seriam opções, mas fugas, sumiços, testos mal pousados em cima de uma panela. Uma parte de mim estaria ali a interpretar a ficção e a outra continuaria a andar pelo mundo, percorrendo as ruas com os passos meio vazios de Évora. Afogar-se-ia em todos os abismos, em todas as escuridões; esperaria com humildade confiante diante de todas as portas abertas, como um cão à espera de um dono que ainda não conhece.
Queria luz, esplendor.
Queria descobrir se a verdade existe, se é ela o eixo à volta do qual tudo gira como um caleidoscópio, ou então morrer.
Ao voltar para dentro, reparei que andava com mais ligeireza, a decisão de fugir fazia-me olhar para tudo com indiferença, quaze com nostalgia.
- Se as folhas caem - dizia eu - , tem de haver uma razão, a Natureza não é estúpida como os homens, e aquilo a que chamas ervas daninhas não sabem o que são; eu é que as julgo e as condeno, mas elas acham que são flores e ervas, tão bonitas e importantes como as outras todas.
Eu não vejo a alma do jardim, gritei um dia, furiosa, não vejo a alma de nada de nada!
Nos últimos dois dias, arrumei meticulosamente num saco algumas roupas e a escova de dentes; por cima de tudo, coloquei a velha Bíblia sem capa que me deram na Igreja.Por cima de mim, brilhavam as estrelas, as mesmas que, há alguns anos, tinham velado pela viagem da minha mãe. Será que as estrelas têm olhos , pensava, será que me vêem como nós as vemos a elas, será que têm um coração misterioso - podem influenciar os nossos actos.
Quando era miúda, antes de ir para a cama, insistia em ir à janela dar as boas noites à minha mãe que, segundo me tinham dito, fora viver lá para cima; se as nuvens, em certas noites, cobriam o céu, desatava a soluçar. Imaginava-a como uma fada de vestido comprido e leve de chiffon colorido, na cabeça trazia um cone luminoso, coberto por estrelinhas, tinha um rosto sereno, levemente divertido, e, em vez de pernas, via-se uma única esteira luminosa: Só assim me podia seguir, esvoaçando de estrela em estrela.
Será por isso que a minha alma se parece com a de um cão?
Será por isso que, desde sempre ando pela estrada da vida à mercê da inquietação feroz dos que não têm dono?
sábado, março 01, 2008
Oração
As noites são longas, nas noites de vento sul.Senti uma imensa vontade de rezar, embora sentada na casa de banho, a minha alma estava ajoelhada aos pés de Sto. Antonio. Fechei os olhos, deixei que a música também se misturasse comigo, lavasse a minha alma dos medos das culpas, me fizesse recordar sempre que eu era melhor do que pensava, mais forte do que julgava ser. Eu não me mexi. A minha cabeça dava voltas, sem perceber o que estava a acontecer. No colégio! Um som interrompeu o meu pensamento - um som agudo, longo, como se fosse uma flauta gigantesca. O meu coração deu um salto.
Veio outro som.E mais outro. Olhei para trás: e ele estava lá. Não via o seu rosto, porque o lugar era escuro - mas sabia que ele estava lá.
Levantei-me, e ele imterroupeu-me: Luisa! - disse com a voz cheia de emoção. - Fica onde estás. Eu obedeci. Que o grande pai me inspire - continuei. - Que o meu medo seja a minha oração desta noite. Na solidão da madrugada, eu rezava. Seria um agradecimento, ou uma súplica? - pensei, ao chegar à minha cama. Por acaso, as perguntas não surgiam todas da mesma forma, durante a noite? E se as perguntas não fossem mais do que a única forma de oração que nos é dada. Continuando a pensar no acaso, decidi ir até à varanda, olhei Sintra com a beleza da noite. Ainda estava muito escuro, o despertador marcava três horas da madrugada, em algumas casas ainda havia luzes acesas. De noite, o acaso tem de fazer frente a uma data de suplicantes: cada lâmpada acesa, uma inquietação, uma fractura, uma ponte que ficou suspensa; cada luz, uma memória sem páz, pensei, enquanto ia andando pela casa e o medo me atormentava. Ao chegar ao fím da sala, sentei-me na cadeira, e abri a janela da varanda, a brisa da noite passara, os rumores, os cheiros, tudo estava imóvel. Sentia-me como num teatro antes do ínicio do concerto, a orquestra já estava no seu lugar, o maestro estava firme em cima do meu armário: olhares, mente, coração, músculos, tudo estava à espera de poder explodir na harmonia do som.
Ainda era madrugada quando se ouviu o latir de um cão que ficava nas encostas de Fitares, e pouco depois um clarão aspergiu a abóbada escura do céu.
Não importa, por quê, por quem estou aqui?, como dissera alguém, - já que tudo se reproduz inexoravelmente, desde os bolores até aos elefantes?
Seria, portanto, filha da inexorabilidade?.
Veio outro som.E mais outro. Olhei para trás: e ele estava lá. Não via o seu rosto, porque o lugar era escuro - mas sabia que ele estava lá.
Levantei-me, e ele imterroupeu-me: Luisa! - disse com a voz cheia de emoção. - Fica onde estás. Eu obedeci. Que o grande pai me inspire - continuei. - Que o meu medo seja a minha oração desta noite. Na solidão da madrugada, eu rezava. Seria um agradecimento, ou uma súplica? - pensei, ao chegar à minha cama. Por acaso, as perguntas não surgiam todas da mesma forma, durante a noite? E se as perguntas não fossem mais do que a única forma de oração que nos é dada. Continuando a pensar no acaso, decidi ir até à varanda, olhei Sintra com a beleza da noite. Ainda estava muito escuro, o despertador marcava três horas da madrugada, em algumas casas ainda havia luzes acesas. De noite, o acaso tem de fazer frente a uma data de suplicantes: cada lâmpada acesa, uma inquietação, uma fractura, uma ponte que ficou suspensa; cada luz, uma memória sem páz, pensei, enquanto ia andando pela casa e o medo me atormentava. Ao chegar ao fím da sala, sentei-me na cadeira, e abri a janela da varanda, a brisa da noite passara, os rumores, os cheiros, tudo estava imóvel. Sentia-me como num teatro antes do ínicio do concerto, a orquestra já estava no seu lugar, o maestro estava firme em cima do meu armário: olhares, mente, coração, músculos, tudo estava à espera de poder explodir na harmonia do som.
Ainda era madrugada quando se ouviu o latir de um cão que ficava nas encostas de Fitares, e pouco depois um clarão aspergiu a abóbada escura do céu.
Não importa, por quê, por quem estou aqui?, como dissera alguém, - já que tudo se reproduz inexoravelmente, desde os bolores até aos elefantes?
Seria, portanto, filha da inexorabilidade?.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Magia
A vida ensinou-me muitas coisas - tentando manter o meu pensamento. Ensinou-me que podemos aprender, ensinou-me que podemos mudar, mesmo que pareça impossível.
É preciso correr riscos, falo para mim mesma. Só percebemos realmente o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça.
Deus dá-nos todos os dias - junto com o sol - um momento em que é possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não nos apercebemos desse momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual amanhã. Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na altura em que enfiamos a chave na porta, pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Mas esse momento existe - um momento onde toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres.
Às vezes, a felicidade é uma bênção - mas geralmente é uma conquista. O instante mágico do dia ajuda-nos a mudar, faz-nos ir em busca dos nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões. Mas tudo isso é passageiro e não deixa marcas. E, no futuro, poderemos olhar para trás com orgulho e fé.
Mas pobre de quem teve medo de correr riscos. Porque esse talvez não se decepcione nunca, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a seguir. Mas quando olhar para trás - porque olhamos sempre para trás - vao ouvir o seu coração dizer: O que fizeste com os milagres que Deus semeou nos teus dias? O que fizeste com os talentos que o teu mestre te confiou? Enterraste-os bem fundo numa cova, porque tinhas medo de perdê-los. Então, esta é a tua herança: a certeza que desperdiçaste a tua vida.
Pobre daquele que escuta estas plavras. Porque então acreditará em milagres, mas os instantes mágicos da vida já terão passado
É preciso correr riscos, falo para mim mesma. Só percebemos realmente o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça.
Deus dá-nos todos os dias - junto com o sol - um momento em que é possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não nos apercebemos desse momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual amanhã. Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na altura em que enfiamos a chave na porta, pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Mas esse momento existe - um momento onde toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres.
Às vezes, a felicidade é uma bênção - mas geralmente é uma conquista. O instante mágico do dia ajuda-nos a mudar, faz-nos ir em busca dos nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões. Mas tudo isso é passageiro e não deixa marcas. E, no futuro, poderemos olhar para trás com orgulho e fé.
Mas pobre de quem teve medo de correr riscos. Porque esse talvez não se decepcione nunca, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a seguir. Mas quando olhar para trás - porque olhamos sempre para trás - vao ouvir o seu coração dizer: O que fizeste com os milagres que Deus semeou nos teus dias? O que fizeste com os talentos que o teu mestre te confiou? Enterraste-os bem fundo numa cova, porque tinhas medo de perdê-los. Então, esta é a tua herança: a certeza que desperdiçaste a tua vida.
Pobre daquele que escuta estas plavras. Porque então acreditará em milagres, mas os instantes mágicos da vida já terão passado
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Silêncios
Começámos a andar muito de perto, tanto que os caminhos que escolhemos pareciam-nos quaze paralelos. Mas ao fím de pouco tempo já nos falavamos através do caminho; depois mais distantes, saudávamo-nos com a mão...
Houve lombas que se interpuseram, bifurcações, outras vozes da vida e das noites.
Silêncios...
De qualquer forma, nenhum outro amor, chegou a ocupar o lugar da tua na minha vida.
A mim também me fogem as horas e os dias se transformam em anos. Mas não te esqueço.
E nenhum pensamento que me tenhas dedicado deixou de chegar até mim planando nas asas do silêncio. Onde quer que estejas, aperto a tua mão.
Através da distância.
Com o meu carinho de sempre.
Houve lombas que se interpuseram, bifurcações, outras vozes da vida e das noites.
Silêncios...
De qualquer forma, nenhum outro amor, chegou a ocupar o lugar da tua na minha vida.
A mim também me fogem as horas e os dias se transformam em anos. Mas não te esqueço.
E nenhum pensamento que me tenhas dedicado deixou de chegar até mim planando nas asas do silêncio. Onde quer que estejas, aperto a tua mão.
Através da distância.
Com o meu carinho de sempre.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Antepassados
Que escolhas fizeram os nossos antepassados? Que fardos tiveram de carregar? E porquê tanta diferença nos pesos? Porque hà quem corre, leve como uma pena, e quem pelo contrário, não consegue sair do chão?
Foi com estes pensamentos que subi de novo ao sótão, ou seja arrecadação. O Sol de inverno já não aquecia o ar e, para não gelar, fechei a janelinha que dava para o telhado, onde via Sintra. Sentei-me de pernas cruzadas diante da mala aberta: não ficara lá grande coisa, algumas cartas poeirentas e um caderno do Fábio de aspecto mais recente abandonados. Eram os últimos vestígios. Para onde me levariam aquelas folhas de papel?
Tinha medo de ficar desiludida, se calhar não passavam de um maço de cartas banais, enviadas por pessoas quaisquer...algo começou a fazer efeito. Um simples postal dizia...regressamos na quinta-feira, no comboio das oito.
Levei-as para casa e coloquei-as em fila sobre a mesa da cozinha, mas já era tarde: como não me apetecia abri-las, ontem no final do dia, decidi esperar pela luz desta tarde cinzenta. Sentei-me na sala, incomodada com a música dos meus vizinhos do lado, não conseguia ler, nem escrever, só às quatro da tarde é que o silêncio caiu sobre o planalto de Sintra, quebrado aqui e ali pelo rouco de alguns camiões. Mais ao longe, ouvia-se o apito dos comboios de Meleças, pareciam estar a dar um pequeno concerto sob a neblina leve do inverno.
Que música será esta?, pensei, será a sinfonia da partida ou do regresso?
Na capa do caderno, uma paisagem de Inverno: em primeiro plano, as pegadas de um lobo na neve; ao centro, árvores com os ramos totalmente cobertos de neve; em fundo, fechando o horizonte - por baixo de um céu claro e luminoso - , uma cadeia montanhosa cintilante de gelo. Era um simples caderno para as contas das despezas domésticas. Talvez tenha sido por isso que o abri com ligeireza. Uma ligeireza que se transformou em gelo, mal vi a letra, e a quem pertencia. Lembrei-me de repente...aquele caderno foi-me dado pela minha tia Victória, irmã da minha mãe. Na primeira página, estava escrito: Poemas. Não me tinha sentido embaraçada ao folhear o caderno, nem ao ler a carta que ela escrevera pelo Natal, ao meu pai para Lisboa mas, diante daquele caderno, sentia-me perturbada e intimidada; nunca imaginara que minha mãe tivesse uma veia poética. Havia muitos poemas - uns curtos, outros muito longos. Li alguns, folheando ao acaso.
Medo
Não são os monstros que me metem medo.
Nem os assassinos.
Não tenho medo da noite.
Nem de aluviões ou cataclismos.
Nem dos castigos ou da morte.
Nem de um amor que não existe.
Só tenho medo.
Da tua mão minúscula Luisinha.
À procura da minha.
Do teu olhar terno.
Perguntando. Porquê?
Cândida
Toldou-me a vista, senti um aperto no peito: era como uma haste, um daqueles pauzinhos afiados que servem para matar os vampiros. A mão de alguém estava a empurrá-la com toda a força, trespassando-me a caixa torácica. O pauzinho enterrou-se mais um pouco, penetrando no diafragma, bastava desviar-se ligeiramente para a esquerda e perfurar-me-ia o pericárdio.
Aquela era a minha mãe.
Foi com estes pensamentos que subi de novo ao sótão, ou seja arrecadação. O Sol de inverno já não aquecia o ar e, para não gelar, fechei a janelinha que dava para o telhado, onde via Sintra. Sentei-me de pernas cruzadas diante da mala aberta: não ficara lá grande coisa, algumas cartas poeirentas e um caderno do Fábio de aspecto mais recente abandonados. Eram os últimos vestígios. Para onde me levariam aquelas folhas de papel?
Tinha medo de ficar desiludida, se calhar não passavam de um maço de cartas banais, enviadas por pessoas quaisquer...algo começou a fazer efeito. Um simples postal dizia...regressamos na quinta-feira, no comboio das oito.
Levei-as para casa e coloquei-as em fila sobre a mesa da cozinha, mas já era tarde: como não me apetecia abri-las, ontem no final do dia, decidi esperar pela luz desta tarde cinzenta. Sentei-me na sala, incomodada com a música dos meus vizinhos do lado, não conseguia ler, nem escrever, só às quatro da tarde é que o silêncio caiu sobre o planalto de Sintra, quebrado aqui e ali pelo rouco de alguns camiões. Mais ao longe, ouvia-se o apito dos comboios de Meleças, pareciam estar a dar um pequeno concerto sob a neblina leve do inverno.
Que música será esta?, pensei, será a sinfonia da partida ou do regresso?
Na capa do caderno, uma paisagem de Inverno: em primeiro plano, as pegadas de um lobo na neve; ao centro, árvores com os ramos totalmente cobertos de neve; em fundo, fechando o horizonte - por baixo de um céu claro e luminoso - , uma cadeia montanhosa cintilante de gelo. Era um simples caderno para as contas das despezas domésticas. Talvez tenha sido por isso que o abri com ligeireza. Uma ligeireza que se transformou em gelo, mal vi a letra, e a quem pertencia. Lembrei-me de repente...aquele caderno foi-me dado pela minha tia Victória, irmã da minha mãe. Na primeira página, estava escrito: Poemas. Não me tinha sentido embaraçada ao folhear o caderno, nem ao ler a carta que ela escrevera pelo Natal, ao meu pai para Lisboa mas, diante daquele caderno, sentia-me perturbada e intimidada; nunca imaginara que minha mãe tivesse uma veia poética. Havia muitos poemas - uns curtos, outros muito longos. Li alguns, folheando ao acaso.
Medo
Não são os monstros que me metem medo.
Nem os assassinos.
Não tenho medo da noite.
Nem de aluviões ou cataclismos.
Nem dos castigos ou da morte.
Nem de um amor que não existe.
Só tenho medo.
Da tua mão minúscula Luisinha.
À procura da minha.
Do teu olhar terno.
Perguntando. Porquê?
Cândida
Toldou-me a vista, senti um aperto no peito: era como uma haste, um daqueles pauzinhos afiados que servem para matar os vampiros. A mão de alguém estava a empurrá-la com toda a força, trespassando-me a caixa torácica. O pauzinho enterrou-se mais um pouco, penetrando no diafragma, bastava desviar-se ligeiramente para a esquerda e perfurar-me-ia o pericárdio.
Aquela era a minha mãe.
quinta-feira, dezembro 20, 2007
Palavras de sempre
Somos o que somos por aquilo em que acreditamos.
A vida é uma grande corrida de bicicleta, cuja meta é cumprir a Lenda pessoal. Precisamos de Quatro Forças Invisíveis: amor, morte, poder e tempo.
É necessário amar, porque somos amados por Deus.
Estas Quatro Forças não podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, já que estão para além de qualquer controlo. Precisamos de as aceitar, e deixar que nos ensinem o que precisamos de aprender.
Nós vivemos num Universo que é, ao mesmo tempo, suficientemente gigantesco para nos envolver, e bastante pequeno para caber no nosso coração. Na alma do homem está a alma do mundo, o silêncio da sabedoria. Enquanto pedalamos em direcção à nossa meta, é sempre importante perguntarmo-nos: O que é que há de bonito no dia de hoje? O sol pode estar a brilhar, mas se a chuva estiver a cair, é importante recordar-se de que isso também significa que as nuvens negras, em breve, se vão dissipar. As nuvens dissipam-se, mas o Sol permanece o mesmo, e nunca desaparece - nos momentos de solidão, é importante lembrar-se disso.
Quando as coisas estiverem muito más, não nos podemos esquecer de que todas as pessoas já experimentaram isso, independentemente da raça, da cor, da situação social, das creças ou da cultura.
Uma bonita prece a Deus.
Ó Deus, reconheço-te nas provações por que estou a passar. Permite, ó Deus, que a tua satisfação seja a minha satisfação.
Que eu seja a Tua alegria, aquela alegria que um pai sente por um filho. E que eu me lembre de Ti com tanquilidade e determinação, mesmo quando é difícil eu dizer que Te amo.
O melhor a dar ao nosso inimigo é o perdão; ao nosso adversário a tolerância, a um amigo, o coração. A um filho, um bom exemplo, a um pai houra; a uma mãe, uma conduta de que ela se orgulhe. A nós próprios, respeito...E ser compassivo para com toda a gente.
Hoje vivi mais um dia, com amor.Para que, se ela acabar amanhã, possa ficar satisfeita comigo, e também quem me amou.
A vida é uma grande corrida de bicicleta, cuja meta é cumprir a Lenda pessoal. Precisamos de Quatro Forças Invisíveis: amor, morte, poder e tempo.
É necessário amar, porque somos amados por Deus.
Estas Quatro Forças não podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, já que estão para além de qualquer controlo. Precisamos de as aceitar, e deixar que nos ensinem o que precisamos de aprender.
Nós vivemos num Universo que é, ao mesmo tempo, suficientemente gigantesco para nos envolver, e bastante pequeno para caber no nosso coração. Na alma do homem está a alma do mundo, o silêncio da sabedoria. Enquanto pedalamos em direcção à nossa meta, é sempre importante perguntarmo-nos: O que é que há de bonito no dia de hoje? O sol pode estar a brilhar, mas se a chuva estiver a cair, é importante recordar-se de que isso também significa que as nuvens negras, em breve, se vão dissipar. As nuvens dissipam-se, mas o Sol permanece o mesmo, e nunca desaparece - nos momentos de solidão, é importante lembrar-se disso.
Quando as coisas estiverem muito más, não nos podemos esquecer de que todas as pessoas já experimentaram isso, independentemente da raça, da cor, da situação social, das creças ou da cultura.
Uma bonita prece a Deus.
Ó Deus, reconheço-te nas provações por que estou a passar. Permite, ó Deus, que a tua satisfação seja a minha satisfação.
Que eu seja a Tua alegria, aquela alegria que um pai sente por um filho. E que eu me lembre de Ti com tanquilidade e determinação, mesmo quando é difícil eu dizer que Te amo.
O melhor a dar ao nosso inimigo é o perdão; ao nosso adversário a tolerância, a um amigo, o coração. A um filho, um bom exemplo, a um pai houra; a uma mãe, uma conduta de que ela se orgulhe. A nós próprios, respeito...E ser compassivo para com toda a gente.
Hoje vivi mais um dia, com amor.Para que, se ela acabar amanhã, possa ficar satisfeita comigo, e também quem me amou.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Ontem
O dia de ontem foi vivido, e pensado, intensamente; quase como um poema.
Cansada, cheguei da praia Grande -como se tivésse chegado a um sítio perdido na paisagem da imensa noite - pelas intermináveis e monótonas estradas que terminam, subitamente, em Rio de Mouro.
É-me sempre difícil chegar a Rio de Mouro. Aqui passo os meus dias; e, aqui, muitas vezes, volto à procura daquilo que sei ter morrido para sempre.
Quantas vezes me traiu, e amou, esta freguesia? Quantas vezes, com amargura, fugi dela?
O que destrói a terra destrói o corpo, disse alguém. A devastada paisagem fazia parte de um corpo cuja memória me é impossível apagar - corpo onde permanece ainda aceso o mistério da criança que fui.
Levantei-me cedo. Fui à junta médica mais uma vez. Almocei, meu relógio espíritual, mandou-me até ao mar. Sobre as rochas, à beira do Oceano, fez ouvir no povoado silencio de uma clara e serena tarde de Dezembro. O sol ia dissipando a transparente neblina e despindo a agreste paizagem dos veus da gaze que a envolviam. Cortavam o ar milhares de azas; pela terra os insectos zumbiam. As casas, pouco elevadas, brancas, amarelas, côr de rosa e azues, destacavam-se a pouco e pouco, d`entre as brumas, e recortavam-se umas no horizonte, outras no fundo escuro pinhal.
Lembrei-me, nesse instante, de alguém. Olho fixamente o fogo enquanto o passado também arde em mim - como um clarão de luz sobre o mar. Sinto que hà uma estranha eternidade naquilo que amámos e foi destruído.
Ao longe, as gaivotas em voo planado sulcam a salinidade aérea do mar. Encosto a cara ao vidro turvo da janela do carro e deixo passar o tempo. Onde meu olhar sombrio, parado, via a noite que caía com vagar; o mar arremassava-se, violento. Assim estavam meus sentimentos.
Cansada, cheguei da praia Grande -como se tivésse chegado a um sítio perdido na paisagem da imensa noite - pelas intermináveis e monótonas estradas que terminam, subitamente, em Rio de Mouro.
É-me sempre difícil chegar a Rio de Mouro. Aqui passo os meus dias; e, aqui, muitas vezes, volto à procura daquilo que sei ter morrido para sempre.
Quantas vezes me traiu, e amou, esta freguesia? Quantas vezes, com amargura, fugi dela?
O que destrói a terra destrói o corpo, disse alguém. A devastada paisagem fazia parte de um corpo cuja memória me é impossível apagar - corpo onde permanece ainda aceso o mistério da criança que fui.
Levantei-me cedo. Fui à junta médica mais uma vez. Almocei, meu relógio espíritual, mandou-me até ao mar. Sobre as rochas, à beira do Oceano, fez ouvir no povoado silencio de uma clara e serena tarde de Dezembro. O sol ia dissipando a transparente neblina e despindo a agreste paizagem dos veus da gaze que a envolviam. Cortavam o ar milhares de azas; pela terra os insectos zumbiam. As casas, pouco elevadas, brancas, amarelas, côr de rosa e azues, destacavam-se a pouco e pouco, d`entre as brumas, e recortavam-se umas no horizonte, outras no fundo escuro pinhal.
Lembrei-me, nesse instante, de alguém. Olho fixamente o fogo enquanto o passado também arde em mim - como um clarão de luz sobre o mar. Sinto que hà uma estranha eternidade naquilo que amámos e foi destruído.
Ao longe, as gaivotas em voo planado sulcam a salinidade aérea do mar. Encosto a cara ao vidro turvo da janela do carro e deixo passar o tempo. Onde meu olhar sombrio, parado, via a noite que caía com vagar; o mar arremassava-se, violento. Assim estavam meus sentimentos.
segunda-feira, novembro 12, 2007
Janela
A vida corre tranquila do lado de fora da minha janela verde; oiço os comboios, os carros, a tosse dos velhos e o riso das crianças. O sol percorre o seu caminho atravessando o céu azul de Portugal, um dos mais belos do mundo inteiro. O meu olhar apanha um pássaro e voa para o Sul. Na minha mente, vejo o estuário do Tejo, sereno e grandioso, depois o rio Sado e continuo a caminho de África, sobrevoando as planícies Alentejanas, secas pela falta de chuva, com os seus sobreiros como mãos viradas para o Criador a pedir água, paz e protecção divina. Já não quero voar para o Norte, para a cidade da luz cinzenta que te come os dias enquanto trabalhas com o coração anestesiado.
Se ficar aqui fechada, em breve serei tolhida pelo frio e pelo sentimento de vazio e de derrota que me vai invadindo as horas do dia, à medida que a noite se aproxima. Por isso escrevo como quem voa e as minhas palavras são o voo daquele pássaro que há pouco cruzou a minha janela.
Antes fugir do que ficar, porque se aqui ficar serei tomada por um langor triste que antecede o esquecimento, como o último suspiro de um pássaro que prefere a morte à imobilidade. Mas também sei que fujo porque desejo que me sigas, que me procures, que a minha ausência te faça vir a9o meu encontro. As mulheres não foram feitas para correr; se o fazem, é para serem apanhadas.
Se ficar aqui fechada, em breve serei tolhida pelo frio e pelo sentimento de vazio e de derrota que me vai invadindo as horas do dia, à medida que a noite se aproxima. Por isso escrevo como quem voa e as minhas palavras são o voo daquele pássaro que há pouco cruzou a minha janela.
Antes fugir do que ficar, porque se aqui ficar serei tomada por um langor triste que antecede o esquecimento, como o último suspiro de um pássaro que prefere a morte à imobilidade. Mas também sei que fujo porque desejo que me sigas, que me procures, que a minha ausência te faça vir a9o meu encontro. As mulheres não foram feitas para correr; se o fazem, é para serem apanhadas.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Silêncio
O teu olhar chega primeiro mas o teu coração demora-se, porque, apesar do silêncio e da distância, agora real outra vez, ficas ainda por aí, espalhado pelos lugares por onde passeámos.
Nada guarda memória mais certa e fiel do que a minha da tua pele, por isso vais ficando no cheiro, no eco da voz, no sabor da boca, no toque dos dedos nas costas da mão, no olhar calado e fixo, atento e preso, muito mais eloquente que mil poemas de amor.
Não voltarei, e até ao fím dos nossos dias, ficamos os dois a pensar como é que somos suficientemente loucos para viver uma possibilidade e suficientemente sensatos para não sofrer com ela. Eu tento ter mais sorte, porque vou meia dúzia de voltas à frente: Já sei onde é mimha casa e já encontrei minha missão na terra. Tu procuras ainda muitos caminhos, por isso ainda não podes escolher nenhum. Gostava que a tua casa fosse meu coração. Se assim fosse, saberias sempre o caminho de volta, mesmo que o teu espírito de nómada e fugidio te levasse para os armários da casa de banho, ou almoçar com os amigos, ou para as ilhas Gregas e todos os lugares do mundo que queres tocar. Mas a minha morada é sempre a última.
Gostava que a tua casa fosse o meu coração, como um botão que encontrou o seu lugar, porque a nossa casa é o único lugar do mundo onde podemos descansar, onde nos compreendem mesmo quando nós não nos conseguimos perceber.
A nossa casa é onde ninguém faz barulho quando estamos a dormir e ninguem nos acorda a meio da noite. Não tenho portas blindadas nem uma estrutura à prova de sismos, mas o meu sistema de aquecimento central é o melhor do mundo e acredita que nunca, mas nunca mais, te irias sentir sózinho ou perdido.
Apetecia-me inundar a tua vida de sonhos, apetecia-me cobrir-te de palavras com sentido, e outros presentes que te enchessem de mim, mas controlei-me como pude, porque já aprendi que não podemos dar mais aos outros do que eles estão habituados a receber. Sabes como sou impetuosa, voluntariosa, impulsiva. Sabes como luto pelo que sonho, como me dedico a tudo aquilo em que acredito. E isso faz com que tenhas medo de mim. Sou demasiado directa, damasiado óbvia, só aguento o jogo da sedução logo no ínicio. Depois a rotina e tudo mais cansa-me e avanço sem estratégia. Todas as mulheres, por mais seguras e maduras que sejam; precisam, acima de tudo, de se sentirem amadas. Acima do respeito, do reconhecimento, da estima e da amizade, elas precisam de sentir amor.
Nada guarda memória mais certa e fiel do que a minha da tua pele, por isso vais ficando no cheiro, no eco da voz, no sabor da boca, no toque dos dedos nas costas da mão, no olhar calado e fixo, atento e preso, muito mais eloquente que mil poemas de amor.
Não voltarei, e até ao fím dos nossos dias, ficamos os dois a pensar como é que somos suficientemente loucos para viver uma possibilidade e suficientemente sensatos para não sofrer com ela. Eu tento ter mais sorte, porque vou meia dúzia de voltas à frente: Já sei onde é mimha casa e já encontrei minha missão na terra. Tu procuras ainda muitos caminhos, por isso ainda não podes escolher nenhum. Gostava que a tua casa fosse meu coração. Se assim fosse, saberias sempre o caminho de volta, mesmo que o teu espírito de nómada e fugidio te levasse para os armários da casa de banho, ou almoçar com os amigos, ou para as ilhas Gregas e todos os lugares do mundo que queres tocar. Mas a minha morada é sempre a última.
Gostava que a tua casa fosse o meu coração, como um botão que encontrou o seu lugar, porque a nossa casa é o único lugar do mundo onde podemos descansar, onde nos compreendem mesmo quando nós não nos conseguimos perceber.
A nossa casa é onde ninguém faz barulho quando estamos a dormir e ninguem nos acorda a meio da noite. Não tenho portas blindadas nem uma estrutura à prova de sismos, mas o meu sistema de aquecimento central é o melhor do mundo e acredita que nunca, mas nunca mais, te irias sentir sózinho ou perdido.
Apetecia-me inundar a tua vida de sonhos, apetecia-me cobrir-te de palavras com sentido, e outros presentes que te enchessem de mim, mas controlei-me como pude, porque já aprendi que não podemos dar mais aos outros do que eles estão habituados a receber. Sabes como sou impetuosa, voluntariosa, impulsiva. Sabes como luto pelo que sonho, como me dedico a tudo aquilo em que acredito. E isso faz com que tenhas medo de mim. Sou demasiado directa, damasiado óbvia, só aguento o jogo da sedução logo no ínicio. Depois a rotina e tudo mais cansa-me e avanço sem estratégia. Todas as mulheres, por mais seguras e maduras que sejam; precisam, acima de tudo, de se sentirem amadas. Acima do respeito, do reconhecimento, da estima e da amizade, elas precisam de sentir amor.
sexta-feira, agosto 10, 2007
Quinta da Letrada
Pela manhã, ouvia a música que vinha do fundo da minha solidão. A quinta chamando-me sempre. É quaze uma música aquática, arestas de sangue, medrosos dedos tamborilando nos vidros poeirentos. Teu nome, este som frio de árvores esfacelando a cal das paredes. Escrevo com o medo e o susto dentro de cada palavra. A vida atinge a espiral vertiginosa do dia. É esta palavra que me serve para nomear e não outra: medo.
Os textos progridem com a desolação dos meus sentimentos feridos, e com a desolação da casa, latejam sobre o computador, doem-me os dedos e os olhos, e o meu coração desgasto pela dor, pela doença.
A casa foi abandonada, permanece vazia, duma janela avista-se outra janela. O interior é húmido e escuro. Onde uma porta enquadra outra porta não se pressentem mais sinais de vida. Apenas flutuam aromas, presenças ténues de corpos. O olhar demora-se sobre as geometrias musgosas dos tectos, uma sombra desliza junto ao quarto que foi dela, o estuque esfarela-se, cai. Ouve-se um rumor misterioso de poços, de insectos por dentro das paredes, o olhar aprende a ver na penunbra esverdeada das salas. Apura-se o ouvido e o tacto quaze consegue delinear a presença dos mortos, perco o medo, caminho de quarto em quarto. Consigo chegar à porta do quarto de infância, abroa. Alguém fotografa alguem, o espelho acende o meu reflexo. Não me reconheço nele, existe uma saída secreta que eu utilizava. Cresci com a casa, a infância desapareceu num recanto quaze inacessível da memória. Nada resta da travessia alegre dos corpos que nela viveram, nem mesmo se encontram sulcos de chuva nos soalhos alongados, lavados com sabão amarelo. Nem ossos de alguma ave que tenha servido de alimento, nem cinza ou pedaços de carvão, restos de gordura, nada. A luz continua a entrar pelas frestas das janelas mal fechadas. A desolação insinua-se até à medula das madeiras. O meu olhar triste e choroso escolhe algumas imagens da casa, únicos sinais guardados na meticulosa memória de quem com ela viveu. Continuei o meu caminho, o silêncio e as sombras deslizam à minha volta. Espreitam por cima do meu ombro para verem os meus rascunhos.
Os textos progridem com a desolação dos meus sentimentos feridos, e com a desolação da casa, latejam sobre o computador, doem-me os dedos e os olhos, e o meu coração desgasto pela dor, pela doença.
A casa foi abandonada, permanece vazia, duma janela avista-se outra janela. O interior é húmido e escuro. Onde uma porta enquadra outra porta não se pressentem mais sinais de vida. Apenas flutuam aromas, presenças ténues de corpos. O olhar demora-se sobre as geometrias musgosas dos tectos, uma sombra desliza junto ao quarto que foi dela, o estuque esfarela-se, cai. Ouve-se um rumor misterioso de poços, de insectos por dentro das paredes, o olhar aprende a ver na penunbra esverdeada das salas. Apura-se o ouvido e o tacto quaze consegue delinear a presença dos mortos, perco o medo, caminho de quarto em quarto. Consigo chegar à porta do quarto de infância, abroa. Alguém fotografa alguem, o espelho acende o meu reflexo. Não me reconheço nele, existe uma saída secreta que eu utilizava. Cresci com a casa, a infância desapareceu num recanto quaze inacessível da memória. Nada resta da travessia alegre dos corpos que nela viveram, nem mesmo se encontram sulcos de chuva nos soalhos alongados, lavados com sabão amarelo. Nem ossos de alguma ave que tenha servido de alimento, nem cinza ou pedaços de carvão, restos de gordura, nada. A luz continua a entrar pelas frestas das janelas mal fechadas. A desolação insinua-se até à medula das madeiras. O meu olhar triste e choroso escolhe algumas imagens da casa, únicos sinais guardados na meticulosa memória de quem com ela viveu. Continuei o meu caminho, o silêncio e as sombras deslizam à minha volta. Espreitam por cima do meu ombro para verem os meus rascunhos.
quinta-feira, agosto 09, 2007
Dispersos de Milfontes/ 1978/79
Outras feridas.
traços de répteis incandescentes pelas dunas, hastes quebradas, excrementos sinalizando com rigor apertados caminhos. Areias de cor indecisa.
São bons estes lugares de cinza, para a solidão insuspeita dos pássaros. Da boca das areias desmonorando-se irrompem fosforosos bichos, adocicados corpos, um rosto de fogo encima o leite vagaroso das nuvens, depois, ouvem-se os nomes dos barcos, e do vento uma voz explode, fende, desfaz a tempestade, teu corpo acalma por cima do misterioso espelho, mão na mão, percorremos todas as águas, conhecemos os domínios húmidos dos monstros marinhos e a loucura dos peixes cegos, que deu nome à nossa amizade e às cidades costeiras. Outras feridas alastram subitamente no fulcro da memória outras noites atravessam-me. Semeiam pelo corpo flores e pânico. Falo com os barcos postos-a-seco, das salivas marinhas cresce uma quilha enfurecida, a escrita é um marulhar incessante, imito a paisagem como se imitasse, ou te escrevesse.
Teu rosto dilui-se nos ossos da página, contamina as cartilagens das sílabas, resta-me o fingimento sibilante das palavras. Caminho pelo interior das dunas, apago o rasto de tinta acetinada, sou terra sem texto onde não encontro água. Só noite e um rumor imperceptível no coração. Mais nada.
traços de répteis incandescentes pelas dunas, hastes quebradas, excrementos sinalizando com rigor apertados caminhos. Areias de cor indecisa.
São bons estes lugares de cinza, para a solidão insuspeita dos pássaros. Da boca das areias desmonorando-se irrompem fosforosos bichos, adocicados corpos, um rosto de fogo encima o leite vagaroso das nuvens, depois, ouvem-se os nomes dos barcos, e do vento uma voz explode, fende, desfaz a tempestade, teu corpo acalma por cima do misterioso espelho, mão na mão, percorremos todas as águas, conhecemos os domínios húmidos dos monstros marinhos e a loucura dos peixes cegos, que deu nome à nossa amizade e às cidades costeiras. Outras feridas alastram subitamente no fulcro da memória outras noites atravessam-me. Semeiam pelo corpo flores e pânico. Falo com os barcos postos-a-seco, das salivas marinhas cresce uma quilha enfurecida, a escrita é um marulhar incessante, imito a paisagem como se imitasse, ou te escrevesse.
Teu rosto dilui-se nos ossos da página, contamina as cartilagens das sílabas, resta-me o fingimento sibilante das palavras. Caminho pelo interior das dunas, apago o rasto de tinta acetinada, sou terra sem texto onde não encontro água. Só noite e um rumor imperceptível no coração. Mais nada.
quinta-feira, agosto 02, 2007
Pouco mais há a dizer
Pouco mais há a dizer.Caminho largando os últimos resíduos da memória. Fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. A grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegrias. Mas estou quaze sempre triste. Vejo algumas fotografias minhas do passado, revelam-me que noutros lugares já estivera triste. Por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui.Água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. Este sol queimando a pele das plantas. Caminho pelos textos e reparo em tudo isto. O que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. O mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem . Hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer sofrimento. Outra memória vai tomando forma, assusta-me, ainda quaze nada aconteceu e já envelheci um pouco. Um jogo de estilhaços é tudo o que possuo, a memória que vem ainda não tem a dor dentro dela. As fotografias e os textos, teu rosto, poderiam projectar-me para um futuro mais feliz, ou contarem-me os desastres dos recomeçados regressos. Mas, quando mais tarde conseguir reparar que a vida vibrou em mim. Um instante, terei a certeza de que nada daquilo me pertenceu. Nem mesmo a vida, nenhuma morte. na mesma posição, reclinada sobre o meu frágil corpo, recomeço a escrever. Estou de novo ocupada em esquecer-me. A escrita é precária morada para o vaguear do coração. Resta-me a perturbação de ter atravessado os dias, humildemente, sem queixumes. Anoitece ou amanhece, tanto faz.
terça-feira, julho 31, 2007
É tarde
É tarde meu amor. Estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva do meu corpo sofrido. Agora, as minhas saudades trituram-me, cospem-me, interrompem o sono.
Habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais...e no ventre impossível das cidades nocturnas. A solidão tem dias mais cruéis.
Tentei ser tua, amar-te e amar o falso ouro...quis ser grande e morrer contigo, enfeitar-me em luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda...cantar-te os gestos com ternura, mas não.
Águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco. Em mim a lama...e o visco inocente dos teus náufragos sem nome de rua, nem estátua-de-jardim-público.
Aceito o desafio do teu amor? Na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição, apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam.
Habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais...e no ventre impossível das cidades nocturnas. A solidão tem dias mais cruéis.
Tentei ser tua, amar-te e amar o falso ouro...quis ser grande e morrer contigo, enfeitar-me em luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda...cantar-te os gestos com ternura, mas não.
Águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco. Em mim a lama...e o visco inocente dos teus náufragos sem nome de rua, nem estátua-de-jardim-público.
Aceito o desafio do teu amor? Na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição, apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam.
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